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domingo, 29 de setembro de 2013

O Mandato


Qualquer pessoa, ao longo da sua vida, exerce diversos mandatos, seja de natureza obrigatória, no desempenho de uma atividade profissional, seja através do cumprimento de funções cívicas, políticas, religiosas, em regime de voluntariado, quantas vezes, a título gracioso e, neste caso, apenas existe, eventualmente, algum tipo de retribuição monetária e possíveis benefícios de ordem social, com objetivos de estímulo e também reconhecimento pela dedicação generosa, a uma causa, a um serviço público ou privado, em favor da sociedade e do bem comum.
O voluntariado, em Portugal, está regulamentado por legislação específica, na qual se estabelecem obrigações e incentivos para os participantes, incluindo, em algumas entidades e serviços, o cumprimento de horários e a responsabilização pela prática de quaisquer infrações, porque o facto de se ser voluntário, em qualquer tipo de intervenção, não significa que deixe de haver o cumprimento de normas, princípios e valores, pelo contrário, o voluntariado envolve a pessoa num estatuto, que sendo reconhecido como muito importante e necessário, exige um certo nível de boas práticas humanistas, e não só.
A Lei N. 71/98 de 3 de Novembro, que estabelece as Bases do Enquadramento Jurídico do Voluntariado, determina no seu articulado o seguinte: «O voluntário é o indivíduo que de forma livre, desinteressada e responsável se compromete, de acordo com as suas aptidões próprias e no seu tempo livre, a realizar acções de voluntariado no âmbito de uma organização promotora.» Artº 3º nº 1) e, mais à frente: «O Estado reconhece o valor social do voluntariado como expressão do exercício livre de uma cidadania activa e solidária e promove e garante a sua autonomia e pluralismo.» (Artº 5º).
O ser humano, apreciado em todas as suas capacidades, pode-se considerar como vivendo em grande liberdade, e só não será total porque há fenómenos naturais e, eventualmente, sobrenaturais que ele não prevê, nem domina, todavia, excetuando-se alguns imponderáveis, ele é livre e, portanto, senhor dos seus atos voluntariamente assumidos, embora, e em relação aos quais, tenha de arcar sempre com as possíveis consequências, quando elas ocorrem.
Assim, ao aceitar desempenhar determinados cargos, a que correspondem o exercício de funções inerentes, a pessoa investida em tais tarefas, tem conhecimento que esta decisão implica um compromisso, por um certo tempo, em condições previamente estabelecidas, sendo de esperar que, em circunstâncias normais, nomeadamente as que vivia aquando da aceitação do cargo, irá desenvolver a respetiva atividade, até ao final do período fixado para o exercício das funções que lhe são atribuídas.
Mas a vida está repleta de imponderáveis. Ninguém pode utilizar a palavra “Nunca”, isto é: nunca serei isto; nunca farei aquilo; nunca aceitarei tal atividade; nunca estarei doente; nunca deixarei de viver e de estar bem na vida; nunca precisarei de alguém. A palavra “nunca”, os sentimentos e atitudes que ela envolve, constituem um grande risco para o nosso comportamento, para a palavra dada, para a assunção de compromissos e as responsabilidades intrínsecas.
Poucas são as situações em que se utiliza a palavra “Nunca”, aceitando-se, todavia, a título de exemplo que, talvez se possa afirmar: “eu nunca mais voltarei a nascer”, porém e ainda assim, com alguma reserva mental, quanto a tal afirmação, considerando-se uma análise em várias perspetivas: biológica, religiosa, filosófica e metafísica.
Portanto, o melhor será mesmo evitar a palavra “Nunca” e, no limite, mandam o bom-senso e a prudência que, possivelmente, apenas seja cordato e revelando alguma humildade, afirmar-se que: “nunca saberei tudo”. Aqui, e talvez noutras circunstâncias, haja alguma justificação para o uso deste vocábulo que, apesar de tudo e por vezes, nos pode atraiçoar.
Com um tal princípio, então será lícito afirmar-se que é impossível garantir que alguém consiga cumprir, integralmente, os seus compromissos, justamente porque é muito provável que situações imprevistas venham a impedir o cumprimento da palavra dada, obviamente aqui no âmbito do “Mandato”, e/ou a aconselhar a mudança de atividade, funções e localização geográfica, para o exercício das respetivas tarefas em novas funções, ou seja, toda a pessoa está sujeita aos imponderáveis da vida.
É neste contexto, e com esta lógica, que se afigura legal e legítimo que qualquer detentor de um cargo, uma profissão ou uma situação, para que voluntária, generosa e, quantas vezes, graciosamente concorreu, tenha de cumprir até ao final o respetivo mandato, ou seja, desde que nenhum imprevisto impeça o cumprimento integral das funções que entretanto assumiu.
Ninguém pode ser prejudicado na vida, só porque assumiu determinadas funções, então num quadro diferente daquele que, posteriormente lhe surgiu, precisamente através de uma oportunidade profissional, um negócio ou uma outra nova situação que, à partida, se considera interessante para uma nova vida.
É certo que há cargos públicos e/ou privados, cujas regalias, desde logo remuneratórias, são de tal forma vantajosas, e mesmo, em alguns deles, extraordinárias, que os seus titulares não os abandonam mas, se ainda assim se demitem deles é porque: ou, entretanto, surgiram situações, impedimentos e dificuldades que obstaculizam a continuação; ou, de facto, emergiu uma melhor oportunidade de vida; ou, uma circunstância, imprevisível, como doença ou agravamento da mesma, acidente, complicação judicial ou de qualquer outra natureza ou, finalmente, incompatibilidades diversas que dificultam o pleno exercício do mandato.
Ora, como ninguém pode prever qualquer uma daquelas situações, no momento em que se compromete aceitar e desempenhar um determinado cargo, é compreensível que o respetivo mandato não seja cumprido, o que não prejudica o órgão, na medida em que sempre há suplentes e preceitos legais que superam os imponderáveis, além de que o “Destino” não nos é revelado previamente.
Imagine-se, a título de exemplo, que uma determinada pessoa aceitou candidatar-se a um cargo político, associativo, empresarial, profissional ou religioso, em condições muito específicas, designadamente, com garantia de meios, colaboradores e lealdade institucional, mas que, rapidamente, após a assunção do cargo, as condições iniciais se alteram, desfavoravelmente, que surge uma outra oportunidade de vida, que se antevê para médio prazo que vão faltar apoios institucionais, que a partir de outras entidades, supostamente imparciais, haverá tratamento discriminatório negativo em relação à organização na qual estamos a exercer funções. Nestas circunstâncias, a demissão do cargo é a atitude correta e que dignifica quem assim procede.
Quando uma instituição não depende apenas de si própria, mas está sujeita à colaboração de outra/s, que lhe deve/m proporcionar apoios diversos: financeiros, técnicos e humanos; ou quando os associados não cumprem as suas obrigações, deixando de haver condições mínimas para o exercício do cargo, então é aconselhável o afastamento, voluntário, dos principais dirigentes, até para criar uma nova oportunidade para outros candidatos e/ou associados, poderem fazer mais e melhor e, desta forma, não se prejudica a instituição e de quem dela depende. Não se deve estar “agarrado” eternamente aos cargos.
Qualquer candidato, a uma determinada função, juntamente com a sua equipa, apresenta ideias, projetos e objetivos a alcançar, evidentemente, considerados razoáveis e exequíveis, partindo do princípio de que terá o apoio institucional, legal e legítimo dos organismos, instituições, associados e outros colaboradores.
Verificando-se que os apoios que são devidos não surgem, ou que são atribuídos com parcialidade, em relação a outras instituições idênticas, e nas mesmas circunstâncias e condições legais, então só resta o abandono do referido cargo, porque não se deve pactuar com a discriminação negativa.
Imagine-se, novamente, com um exemplo mais concreto: uma associação que vive, praticamente, da quotização dos seus sócios e de alguns subsídios legais a atribuir por outras entidades e que: quer os sócios; quer as tais instituições, falham nas suas obrigações e apoios, respetivamente; ou, ainda, que os dirigentes vêm a assumir outras funções, noutras instituições e que mesmo não sendo incompatíveis, podem prejudicar a associação, então, nestas circunstâncias, o dever dos dirigentes ou do responsável envolvido em atividades diferentes, poderá optar pela resignação do cargo que vinha desempenhando, abrindo caminho para uma melhor compatibilização e harmonia com outros dirigentes. Os superiores interesses da instituição devem ser salvaguardados.
É essencial que, assumidas as funções para as quais se foi eleito democraticamente, e/ou nomeado legalmente, se exerça o poder com total transparência, com um só peso e uma só medida, para com todos os intervenientes. A partir do momento da tomada de posse, passa-se à situação de representante daquele público-alvo que participou no ato eleitoral.
É fundamental que as instituições tenham conhecimento de como são distribuídos os recursos que, afinal, provêm de todos os contribuintes. É uma questão de ética, isto é: que todos sejam tratados com respeitabilidade, consideração e estima, porque só assim se credibilizam as instituições, os seus titulares e os regimes, beneficiando quem deles precisa.
O objetivo último de qualquer instituição é servir bem o seu público-alvo, seja ele: associados, acionistas, clientes, fornecedores, colaboradores, parceiros, cidadãos em geral. A meta é proporcionar a todos as melhores condições de relacionamento, satisfação das suas necessidades e uma vida social mais confortável e mais honrosa. Em causa e em primeiro lugar está sempre a dignidade da pessoa humana.
Uma situação que, igualmente, pode conduzir à cessação de um mandato, prende-se, por exemplo, com a quebra de solidariedade entre os membros dos corpos sociais, a falta de lealdade e assunção de compromissos assumidos perante os colegas e/ou os associados, permanente desconfiança de um ou outro elemento de um órgão social face a elementos de outros corpos sociais da mesma instituição. Nestas circunstâncias, a renúncia ao cargo impõe-se como uma atitude de defesa da dignidade pessoal, honra e bom-nome.
Quem não tiver as condições mínimas para atingir os objetivos a que se propôs, verificadas que estejam as impossibilidades que conduzem ao incumprimento das promessas, a atitude correta, ética e digna é a demissão, sem mais delongas, sem mais sacrifícios, sem humilhações e sem pactuar com situações consideradas injustas, porque em bom rigor, o voluntariado não deve revestir qualquer tipo de imposição mas, isso sim, deve assumir-se como missão, voluntariosa, dedicada e generosa.

 O Presidente da Direção da ARPCA,
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

domingo, 1 de setembro de 2013

Comunicação Transparente


Comunicar apresenta-se, hoje, como uma das principais potencialidades da humanidade, objetivamente, na sua vertente mais nobre que é o diálogo, a diferentes níveis: interpessoal, intergrupos, inter-gerações e inter-nações, sejam quais forem os domínios, os temas e as finalidades.
O caminho mais adequado e digno da condição humana, para resolver os conflitos: alguns, naturais e compreensíveis; outros, menos atendíveis, que nas diversas circunstâncias da vida e dos papéis que cada ser humano desempenha, vão opondo interesses, valores, princípios e objetivos.
A humanidade está predestinada à inevitabilidade da comunicação. Quem se esconder na penumbra da indiferença, na aparente tranquilidade do silêncio sistemático e inconfessável, ou no egoísmo dos interesses ilegítimos, terá, provavelmente, imensas dificuldades em cooperar com os seus semelhantes, com as instituições, com um mundo cada vez mais exigente, e com a própria natureza.
Gerir, equilibradamente, a comunicação interpessoal é, cada vez mais, uma ciência superior, (também uma arte), nem necessariamente uma ciência exata, nem absolutamente uma ciência social e humana, porque numa ou noutra, sempre terá lugar alguma objetividade e, simultaneamente, haverá espaço para uma certa margem de subjetividade, sem que isso afete a veracidade da comunicação, a sua autenticidade e eficácia.
Com efeito, a ciência da comunicação pressupõe um método e um objeto: um método ou processo pelo qual se progrida e se alcancem novos resultados, ou se melhorem os já existentes e se atinjam objetivos previamente estabelecidos; um objeto, que, no quadro da ciência da comunicação, se pode identificar com a dimensão humana de relacionamento interpessoal, isto é, melhorar a qualidade e a quantidade dos atos comunicacionais.
Na conjugação e articulação do método com o objeto de estudo, considerem-se as estratégias, os instrumentos e a avaliação, através dos quais se credibilizem, testando, os procedimentos dos interlocutores comunicacionais.
Falar, ouvir, escrever, pintar, mimetizar e desenvolver toda uma panóplia de linguagens verbais e não-verbais, sem intencionalidade, sem regras, sem objetivos e sem consequências, equivale a uma possível incompetência dos intervenientes comunicacionais.
Sendo a comunicação humana um veículo poderosíssimo, único e acessível, exige-se que os seus utilizadores sejam competentes no exercício deste recurso singular do ser humano. Da competência do uso da língua, dependem os resultados do ato comunicacional, respeitando sempre as normas do respetivo código utilizado, o qual deve ser do conhecimento profundo dos interlocutores.

O Presidente da Direção da ARPCA, 

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

domingo, 4 de agosto de 2013

Relações Humanas


A organização social, qualquer que ela seja, implica a existência de relações entre os elementos constituintes da comunidade. O estudo de tais relações e a elaboração de leis universais, que visam estabelecer regras e sanções, não é de fácil aplicação, porque as ciências que investigam os seres humanos não atingem uma plena objetividade no conceito paradigmático que se tem das ciências positivas.
 Não se pode, por falta de condições, estudar pessoas vivas como se estudam outros animais em laboratório, porque o observador é, também ele, observado ou seja, é sujeito e objeto do conhecimento, o que se agrava quando se estuda a própria sociedade em que todos estão integrados e na qual interagem uns com os outros e com a própria natureza.
As relações humanas quando potencializadas para a resolução de problemas, para a convivência pacífica entre sociedades e indivíduos, devem ser estimuladas e conduzidas no sentido de se obter: por um lado, a maior objetividade possível; por outro, os melhores resultados coletivos. Certamente que deve-se ter na devida conta o jogo de interesses que, individual ou grupalmente, sempre existem nas sociedades.
Através do relacionamento humano entre os diversos atores representativos dos interesses, é possível tentar aproximações, esgotando todas as formas, processos e meios ao alcance dos intervenientes. Igualmente se verifica que ao longo da história, em todas as sociedades, ocorrem interesses antagónicos: guerra e paz; vida e morte; riqueza e pobreza; saúde e doença; fome e abundância.
 Quaisquer que sejam as situações, sempre se encontram interesses em algumas delas, porque a guerra pode beneficiar uns, como a paz beneficia outros (neste caso defende-se que a paz beneficia todos); a riqueza proporciona domínio sobre os pobres, os fracos e oprimidos e a pobreza pode possibilitar um maior estímulo para quem tem o poder político, estabelecer regras e criar oportunidades para um maior desenvolvimento (se não se deve condenar a riqueza; também se afirma que não se defende a pobreza).
Entre outros critérios, podem-se estabelecer as relações humanas, quanto ao seu início, imediatamente após o nascimento do indivíduo, com o qual os seus progenitores ou educadores instituem relações afetivas, que vão facilitar a integração da criança numa sociedade que lhe fixará determinadas regras de conduta e transmitirá padrões de cultura e consequente comportamento.
A convivência humana assente nas diversas formas de relacionamento, reduz os perigos de uma solidão que, a todos os títulos, dificulta o desenvolvimento e adequação do indivíduo à sociedade, e vai contra a sua própria natureza social.
Na verdade: «O isolacionismo, hoje, não é possível. Se devemos, de qualquer maneira, sobreviver, está claro que sobreviveremos só como membros uns dos outros. (…) Bem ou mal, esta na qual vivemos é a época do planejamento, da assistência social, da propriedade comunal e, no plano internacional, das organizações multinacionais. A capacidade do indivíduo de agir, e até de pensar, com uma certa independência de seu ambiente social ou contrastando com ele, vai-se reduzindo constantemente.
(…) Para o homem contemporâneo a redenção coincide com a sua capacidade de não se transformar nesse momento em um indivíduo – (…) O conteúdo da sua salvação com respeito à sociedade consiste, para o homem moderno, no descobrir a si mesmo como pessoa que, deliberadamente, decide a favor de uma relação de interdependência com os outros; sabedor de que a sua natureza já é a de fazê-lo entrar em relação com os seus semelhantes…» (MONDIN, 1980:156).
O cidadão do futuro que se deseja para este século, no quadro de uma cidadania de responsabilidade, e a partir do espaço luso-brasileiro, deverá ancorar a sua formação em valores, princípios e atitudes que privilegiem as várias dimensões em análise, obviamente, sem prejuízo de outras que, entretanto, se mostrem pertinentes. A dimensão social não pode, nem deve, ser ignorada, contudo, para o seu êxito, é fundamental uma boa prática nas relações humanas entre cidadãos, entre povos e nações.
Como em muitas outras dimensões humanas, a complexidade do homem, quer na sua constituição físico-biológica, quer na sua componente imaterial, não é compatível com quaisquer processos hereditários, no que respeita à obtenção das melhores condições para um bom relacionamento humano.
As características individuais para que socialmente um indivíduo se possa relacionar com outros, têm de ser adquiridas, trabalhadas, aperfeiçoadas ao longo da vida, pelo estudo, pela experiência, a partir da compreensão dos problemas sociais e, sempre que possível, com a sua participação na resolução dos mesmos, em função dos papéis que vai exercendo em cada momento da sua existência.
Nesse sentido, defende-se uma preparação integral, não só ao nível familiar, mas também e principalmente durante o processo educativo. Hoje não basta ser-se um excelente técnico, especialista num determinado domínio, porque o homem é muito mais do que isso.
O homem é um ser relacional, em convivência e cumplicidade social com os outros, seus semelhantes, e numa direção que aponta, também, para uma outra relação sobrenatural. Esta tese privilegia um cidadão do compromisso, do diálogo, da interação a todos os níveis, da cooperação, do relacionamento total, aberto e descomplexado, um cidadão de entrega e de voluntariado ativo.
O cidadão comprometido com a sociedade, preparar-se-á o mais cedo possível, com o melhor nível de relacionamento pessoal, seja numa perspectiva meramente comunicacional, seja do ponto de vista de uma amizade comprometida com objetivos do fortalecimento de relações humanas consolidadas, e sempre renovadas, no sentido da maior sinceridade e lealdade, também em ordem à cooperação entre pessoas, setores, comunidades e civilizações.
A sociedade humana moderna e global não pode adiar por mais tempo estes desideratos, sob pena de caminhar para a desumanização e selvajaria totais. No mundo moderno é de absoluta necessidade a incrementação de uma cultura da solidariedade, da afeição, da lealdade, da estima, da dádiva e da fraternidade.
O mundo do século XXI, só pode caminhar para uma reformulação de atitudes pessoais e coletivas, para uma nova ordem internacional que dê primazia aos valores e princípios verdadeiramente humanos, a partir das relações sadias e construtivas que se pretendem entre os homens. Discutem-se valores desde sempre considerados universais e que decorridos os séculos, hoje sente-se, talvez mais do que nunca, a necessidade de a partir deles se construir e desenvolver relações pessoais e sociais.
Com efeito, parece que: «É geral, e certamente unânime, o apoio que, em silêncio, recebemos das multidões, em toda a parte, os personagens, gestos e episódios que encarnam tais valores como a solidariedade humana, o espírito de justiça, a lealdade, a dignidade, o respeito à vida alheia, o jogo limpo, o culto à arte, a fé. Sabemos que o que se tem como erro, ou anti-valor, no caso, pode ocorrer e ocorre com frequência. Entendemos a incidência do mal. Mas estamos todos de acordo em que o bem deve prevalecer e em que, de modo geral, possa consistir o bem.» (REIS, 1978:114).
Naturalmente que se compreende muito bem a dificuldade de se atingir um patamar de perfeição, nas relações entre pessoas todas diferentes, todas complexas, todas com pontos de vista e interesses relativizáveis, umas em relação às outras, todavia, se se partir da aceitação desta pluralidade de comportamentos, atitudes, sentimentos, aspirações e individualidades, com o objetivo de melhorar a interação humana, seguramente que dentro de algumas décadas viver-se-á numa sociedade mais fraterna, porque mais tolerante, porque mais compreensiva e porque mais cooperante, enfim, porque melhor preparada.
Hoje, já ninguém duvida das potencialidades do diálogo, do debate franco e aberto, da conjugação de esforços no sentido da implementação de uma estratégia das sinergias, em ordem a uma melhor conjugação das boas-vontades e das competências individuais e dos grupos porque, isoladamente, é cada vez mais difícil, ou mesmo impossível, o homem resolver as complicadas situações que o mundo moderno lhe vem colocando.
Quaisquer que sejam as possíveis técnicas de relações humanas, incluindo aquelas que do ponto de vista comercial são mais utilizadas, algumas com uma agressividade chocante, verifica-se que nenhuma funciona em absoluto, isto por vários motivos: o ser humano é, por natureza, composto de contradições devidas à sua própria constituição psico-fisico-social, porque é difícil prever o comportamento ou a reação que perante determinados estímulos se produzirão e, mais preocupante do que isto, se reage sempre de igual forma a estímulos idênticos.
Esta imprevisibilidade da natureza humana, pode ser atenuada se, desde a mais tenra idade, se incutir uma dinâmica de cultura de valores. Além dos valores já referidos, é importante para um bom relacionamento humano a amizade, que em certas culturas, povos e territórios pode assumir diversas formas e designações, acabando por se institucionalizar.
Na verdade: «Apesar do valor que damos à amizade, o nosso tipo de sociedade contudo nunca se institucionalizou completamente. No entanto, em muitas regiões de África, assim como num certo número de ilhas do Pacífico Sul e noutras partes do mundo primitivo, as maneiras de tratar com os amigos são sistematicamente regulamentadas não aparentadas duma sociedade.» (TITIEV, 1963: 262).
Ao defender-se o valor da amizade, esta entendida no seu sentido mais verdadeiro e profundo, como um instrumento de grande eficácia na melhoria das relações humanas, pretende-se com isso incrementar uma nova atitude entre os homens, começando, desde logo, por evitar críticas destrutivas que, para além de nada resolverem, se tornam perniciosas e afetam a auto-estima  e personalidade dos indivíduos visados. A crítica destrutiva é uma atitude imprudente e que, em certas situações, pode causar sequelas irreparáveis.
O que se defende como sendo muito mais cordato é tentar compreender as pessoas, procurando descobrir os motivos pelos quais agem de determinadas formas. Nesta postura pode-se demonstrar toda a simpatia, tolerância e generosidade e, se houver razões para tal, deve-se usar do elogio sincero e amigo, porque será o melhor incentivo e prova de admiração que se pode dar a alguém.
 Quando se é sincero nas apreciações, certamente que as pessoas modificarão os seus comportamentos, saberão respeitar e colaborar em projetos de vária natureza e dimensão na educação para a cidadania e respeito pelos direitos humanos. A sinceridade implica consideração, lealdade, reciprocidade e estima.
Urge pois implementar uma educação de relações humanas, baseada em regras e códigos de conduta ético-morais, começando-se desde já por evitar toda e qualquer contradição relativamente a sentimentos, valores e gostos alheios. É importante ter sempre presente que toda e qualquer pessoa não só tem direito à dignidade, como a usufruir dos seus gostos. Incluir-se-ia aqui uma espécie de ciência para a vida quotidiana, sustentada por uma educação cuidada e no exercício das boas maneiras com o melhor requinte possível.
As boas maneiras, aprendidas ou inatas, tornam a vida mais fácil, seja no trabalho, na família, na associação ou em quaisquer outras circunstâncias da existência. Em cada dia que passa, sempre há a oportunidade de mostrar que é possível ser-se, sinceramente, amável e solidário. São atitudes que não empobrece quem as pratica, mas satisfazem a quem as recebe.
Muito embora se desconheçam receitas infalíveis para manter um bom relacionamento, não se deve ignorar que existem princípios que, pelo menos, podem proporcionar um bom início de relacionamento, quando uma das partes manifesta abertura, respeito, estima e admiração pela outra: «Diz um provérbio antigo e verdadeiro que com uma gota de mel se apanham mais moscas do que com uma gota de fel. O mesmo se dá com os homens. Se pensar conquistar um homem para a sua causa, convença-o primeiro de que o estima sinceramente. Nisto há uma gota de mel que lhe chega ao coração, o qual, digam o que disserem, é o caminho mais certo para chegar à razão.» (STEED, s.d: 31).

Bibliografia

MONDIN, Battista, (1980). O Homem quem é ele? Elementos de Antropologia Filosófica, Trad. R. Leal Ferreira e M. A. S. Ferrari; revisão de Danilo Morales, 3ª Ed., São Paulo: Edições Paulinas. (Colecção Filosofia 1)
REIS, Sólon Borges dos, (1978). A Crise Contemporânea da Educação, São Paulo: Centro do Professorado Paulista.
STEED, William B. (Dir.), (s.d.). Curso de Relações Humanas: Conversação eficiente e desenvolvimento da personalidade, Lisboa: Instituto Latino de Relações Humanas (Fascículo 3:34)
TITIEV, Misha (1963). Introdução à Antropologia Cultural, Trad. João Pereira Neto, Prefácio de A. Jorge Dias, 6ª. Ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

O Presidente da Direção da ARPCA,

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo 

E-mail: arpcaminha@gmail.com    

domingo, 7 de julho de 2013

A Dignidade Ultrajada


Em tudo na vida há limites, fronteiras ou, dito de outra maneira, há (deveria haver) princípios, valores e sentimentos que, numa sociedade civilizada, respeitadora dos mais elementares direitos jurídico-constitucionais, ético-morais e sócio-humanos, devem ser religiosamente observados, sejam quais forem as circunstâncias.
Nada é mais importante do que a dignidade da pessoa humana, a sua inviolabilidade, no que respeita à sua integridade físico-psíquica e espiritual, à propriedade privada, legítima e legalmente conseguida e também o direito à honra, bom-nome, reputação, prestígio e estabilidade económico-financeira.
O mundo moderno, povoado por grupos tão heterogéneos quanto complexos, busca um novo rumo, através e com a intervenção das pessoas: umas, com mais poder, nas diferentes áreas de domínio: económico, financeiro, empresarial, laboral, político, religioso; outras, com uma fraca influência, porém, a convergência para a justiça social, para a paz, tranquilidade e bem-estar dos povos, parece difícil, não obstante os veementes apelos, proferidos pelas personalidades mais influentes, em todo o universo habitado.
A esperança é a última ideia a morrer, e ainda bem que assim, e porque, como refere o adágio popular: “Enquanto há vida, há esperança”. Vive-se, portanto, no otimismo moderado e realista, na expectativa de melhores dias, o que não significa, nem é incompatível com o facto circunstancial da existência de graves e profundas crises, não só económica, financeira, laboral e social, mas também, com idêntica gravidade e preocupação, a crise de valores, de sentimentos e afetos, a incentivada crise intergeracional, promovida e exacerbada por gerações de decisores que nunca teriam passado dificuldades na vida, sempre envolvidas por “almofadas” de superproteção familiar e de amigos.
Vive-se o drama da geração sénior, tão atacada por decisores que já têm o futuro praticamente garantido e que, salvaguardando, precisamente, os seus bons postos de trabalho, impõem medidas de austeridade, que ultrapassam os limites do respeito pela dignidade dos mais velhos, por aqueles que, de alguma forma, contribuíram para que os titulares dos atuais poderes: económico, financeiro e político, estejam de tal maneira posicionados que, é caso para se poder pensar: “Não se olha a meios para se atingir fins”, mesmo que tais objetivos humilhem, ultrajem e violem os mais elementares direitos da dignidade da pessoa humana.
A violência com que se está a interferir na já pouca estabilidade sócio-económica dos mais idosos, que integram uma classe social que já deu tudo ao país e ao mundo, os reformados e pensionistas, não parece ter paralelo na História da Democracia. Na verdade: «Este grupo tem sido duramente atingido nos últimos tempos no nosso país. É um grupo que já não tem hipóteses de encontrar novo rumo na vida. Há limites de dignidade que não podem ser ultrapassados.» (Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República de Portugal, in Jornal das Oito, 14 de Maio de 2013, TVI).
Quando o mais alto magistrado da Nação assim se pronuncia, publicamente, para o seu povo, parece que é tempo dos decisores políticos e financeiros refletirem no alcance de tal “aviso”, de “meterem a mão na consciência” e reverem suas posições economicistas, que agravam o sofrimento de quem tudo lhes deu.
A ingratidão, a insensibilidade, a frieza com que parecem agir, em nome de alegadas convergências, de pseudo-igualdades, da propalada estabilidade e crescimento económico e da subserviência à sacralidade dos mercados, não justificam toda a violência que as medidas tomadas, e as que ainda querem impor, comportam em si mesmas.
Os salários, as reformas e pensões, bem com os direitos sociais, constitucional e legalmente instituídos, aprovados pelos legítimos representantes do povo, e dos povos de todo o mundo, que estão representados nas várias instâncias internacionais: parlamentos nacionais, europeus e Nações Unidas, não podem ser retirados, porque eles são: não só, as conquistas das liberdades democráticas e do trabalho das pessoas; como também são uma propriedade privada, intocável; constituem o sangue “sagrado” de quem trabalhou uma vida inteira;  de quem cumpriu com todos os seus deveres, sociais, contributivos fiscais e até solidários.
Acredita-se, e confia-se, que os especialistas e dirigentes responsáveis saberão encontrar outras fontes de financiamento do Estado, para superação da crise, desde logo se tiverem a preocupação, honestidade intelectual e moral de analisarem “a própria casa”, isto é: os gastos, por vezes sumptuosos que a máquina estatal comporta, porque haverá, certamente, muitas despesas supérfluas, de mera ostentação e luxuosa grandeza, que em anda contribuem para o equilíbrio das finanças públicas.
Naturalmente que não se deseja um Estado miserabilista, somítico, que tenha de recusar receber bem quem o ajuda, mas que, justamente, não pode, e não deve, gastar em vaidades, em manifestações de falso “riquismo”. O Estado, tal como qualquer pessoa, família e instituição, não pode envolver-se em eventos, projetos e gastos para os quais não tem capacidade financeira, até sob pena de os credores interpretarem de forma pouco favorável a aplicação dos valores que são emprestados. A humildade da nossa existência real é a credibilidade que justifica a nossa honestidade, um Estado considerado “pessoa-de-bem”.
O Estado, pela intervenção de alguns dos seus governantes, democraticamente eleitos, outros nomeados, estes nem sequer respondem perante o povo, tem a obrigação ético-moral de dar os bons exemplos de uma governação justa, parcimoniosa, rigorosa, com transparência e lealdade, para só depois exigir dos seus concidadãos, a quota-parte de participação na resolução dos problemas do país. O Estado tem imensos recursos patrimoniais que pode alienar, alguns destes até estarão a dar despesa, nomeadamente de conservação.
Se é certo que quando uma pessoa não tem capacidade económico-financeira, para pagar as suas contribuições, taxas, impostos, derramas, sobretaxas e outros instrumentos fiscais e de coação, vê o seu património confiscado, então o Estado, que tem pecúlio, deve declará-lo e disponibilizá-lo aos seus credores, em vez de subtrair os rendimentos do trabalho dos cidadãos, mesmo que tais proventos resultem de heranças ou da sorte.
É curioso verificar que, por exemplo, em relação à sorte, quase se pode afirmar que, em certas circunstâncias, qualquer dia não vale a pena ter sorte, porque esta também paga imposto, e, se o montante for superior a um determinado valor, até pode ser “confiscado”, todavia, se o jogador tem azar, o Estado não o ajuda a suportar o prejuízo. Poder-se-ía pensar que o Estado tem dois pesos e duas medidas, que é profundamente parcial, porém, quase sempre a seu favor.
Vive-se um período que, em algumas situações, talvez se possa comparar à “Dignidade Ultrajada”, onde se têm vindo a ignorar os mais arcaicos valores do respeito, da consideração e da proteção dos mais velhos, daqueles que, apesar das alegadas crises, alguns ainda conseguem “apertar mais o cinto”, precisamente para fazerem alguma poupança, na ordem dos vinte por cento, segundo fontes oficiais, para assim se precaverem quanto ao seu próprio futuro, dos seus familiares e de algum amigo, mas cuidado, porque se as poupanças ultrapassarem um determinado limite, já ninguém garante que fiquem seguras, salvaguardadas dos famigerados impostos e crises frequentes.
É tempo de se apelar de que “não vale tudo” e muito menos que se venha, quase sub-repticiamente, retirando os “sacrossantos” salários, reformas e pensões. É tempo de alertar os responsáveis para a decência de uma sociedade, que tem o direito de exigir respeito pela dignidade da pessoa humana, pelo seu património, construído à custa de muito trabalho, poupança, sacrifícios, sujeição a impostos enormes, tudo em nome de um futuro mais digno, mais confortável.
É esta faixa da sociedade, que atinge, em Portugal, mais de trinta por cento da população, representada pelos seniores, que é necessário proteger, respeitar e valorizar porque, afinal, são eles que já estão a substituir o Estado, amparando os filhos e os netos, suportando alguns encargos destes familiares que não têm, ainda, a certeza de um rumo seguro, um futuro promissor.
A dignidade da pessoa humana não pode continuar a ser ultrajada, em nenhuma circunstância. “Não vale tudo”, prezados concidadãos e responsáveis pelas decisões. Pratiquem a os mais elementares valores humanos: solidariedade, amizade, lealdade, consideração e respeito, pelo menos estes.
O Presidente da Direção da ARPCA,
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo 
 
 

domingo, 2 de junho de 2013

Defesa da Economia Familiar


Ainda que, eventualmente, em algumas culturas e mentalidades, excessivamente focadas num elevado desprendimento material, a verdade é que, atualmente, tal como no passado, é impossível viver-se sem a componente monetária, independentemente da sua proveniência, sendo certo que, na esmagadora maioria das pessoas, ela resulta do trabalho, admitindo-se que toda a gente teria este bem essencial e, noutras situações, o rendimento poderá ter a sua origem em reformas, pensões, subsídios diversos, lucros, heranças, entre outras fontes possíveis, para custear a sobrevivência de cada cidadão.
Indiscutivelmente que a saúde é uma condição indispensável à vida e, à volta dela, se idealizam e executam os mais fantásticos projetos que: uns, acabam por ter sucesso; outros, ficam pelo caminho e, outros, ainda, conduzem ao fracasso. Também é verdade que para o exercício de muitas atividades, importa mais a saúde mental do que a física, noutras, todavia, é esta última que determina o desenvolvimento de uma profissão. Em todo o caso, sempre é necessário estar-se na posse de uma boa saúde, para se poder viver com algum conforto e esperança de vida.
E se a saúde é condição fundamental, para se viver com alguma qualidade de vida, segue-se-lhe o trabalho como um outro fator, que até pode ser complementar, mas que, sem o qual: é muito difícil a realização individual das pessoas; a manutenção de uma existência verdadeiramente humana; a proteção do indivíduo, da família e o desenvolvimento sustentável da sociedade. Pelo trabalho a pessoa se engrandece e se dignifica, independentemente da sua faixa etária, estatuto e convicções diversas.
As pessoas planificam e projetam para o futuro as suas vidas, quantas vezes, também, das famílias e até, ainda que parcialmente, dos amigos. Ao longo da vida ativa, exerce-se uma atividade profissional remunerada, cuja duração e condições foram fixadas no início, através de um contrato de trabalho ou documento equivalente, no qual se articulam deveres e direitos, que é subscrito pela entidade empregadora e pelo trabalhador, sendo legítimo, justo e legal que as partes exijam o cumprimento do clausulado que, livremente e de boa-fé assinaram.
A partir do momento em que o trabalhador entra em atividade, nos termos do que ficou acordado com a entidade empregadora, as partes ficam obrigadas a cumprir com as normas fixadas no contrato e, desde logo, o empregado começa a receber o salário estabelecido, com o qual vai administrar a sua vida e a da família e/ou dependentes. Trata-se de um valor que será referência para os seus projetos de vida: quer enquanto estiver no ativo; quer na situação de reforma ou pensão.
Para qualquer pessoa que vive do rendimento do trabalho, que se comprometeu a cumprir com todos os seus deveres, certamente, tem toda a legitimidade, que a legislação que suportou a sua contratação, deve ser cumprida, rigorosamente, e que é perfeitamente justo que reivindique, sempre, os seus direitos e, nesta perspectiva, o seu projeto de vida deve ser concretizado, quer no ativo, quer na reforma, considerando-se que toda e qualquer alteração das normas contratualizadas, promulgadas à revelia do trabalhador, unilateralmente e em seu prejuízo, é uma violação inaceitável dos seus mais elementares direitos, designadamente, horários, redução de salários e pensões, aumento de descontos e de enormes impostos. Não será justo, nem legítimo e, provavelmente, não será legal que se modifique o que estava estabelecido entre as partes.
O trabalhador e, mais tarde, o reformado/pensionista, “formatou” o seu projeto de vida em função de um contrato que estabeleceu, de boa-fé, com uma entidade empregadora, pública ou privada. Construiu a sua economia com base num salário, depois numa reforma/pensão. Adotou um determinado nível de vida.
Assumiu compromissos, por exemplo: um plano de seguro de vida e proteção na doença; aquisição da sua própria habitação; um projeto de estudos e de formação, para ele e seus familiares; um plano alimentar saudável; períodos de férias e de lazer, em função dos rendimentos e, no último terço da sua vida, o descanso merecido, confortável e digno.
Durante uma vida de trabalho ativo, o empregado construiu o seu edifício económico para, na velhice, ter o justo e merecido bem-estar, a todos os níveis, porque: «1. As pessoas idosas têm direito à segurança económica e a condições de habitação e convívio familiar e comunitário que respeitem a sua autonomia pessoal e evitem e superem o isolamento ou a marginalização social; 2. A política de terceira idade engloba medidas de carácter económico, social e cultural, tendentes a proporcionar às pessoas idosas oportunidades de realização pessoal, através de uma participação activa na vida da comunidade.» (CRP, 2004:40, Artº 72º).
Sem grande dificuldade infere-se, portanto, que os rendimentos auferidos ao longo da vida, enquanto trabalhador ativo e depois na situação de reforma/pensão, suportam uma economia individual e/ou familiar que, em circunstância alguma pode ser prejudicada, até porque tudo o que o trabalhador conseguiu e o que virá a obter, por força das participações/contribuições que fez durante a sua vida contributiva é seu: por direito próprio; por lei que então lhe foi aplicada e que ele cumpriu, não podendo haver lugar a alterações que lhe sejam desfavoráveis aliás, nunca se aplica uma lei retroativamente, quando ela é menos favorável às pessoas.
A maioria das pessoas vive dos seus salários, reformas e pensões. As suas economias constroem-se e consolidam-se a partir daqueles rendimentos. Tudo funciona à volta das receitas que se auferem com o exercício de uma atividade profissional e é sabido que: «Em geral, sem suficientes recursos económicos, a convivência com a família e os amigos fica dificultada, o acesso a bens de cultura e educação fica condicionado, a oportunidade para o divertimento, as viagens e as férias fica comprometida – o trabalho perde significado.» (CUNHA, et. al, 2010:627).
O motor para o desenvolvimento e progresso da sociedade poderá verificar-se se forem respeitados os deveres e direitos das partes intervenientes – empregadores/empregados que, em parceria leal, cumprem integralmente os acordos que subscrevem.
A vertente económica vai-se construindo e consolidando, quanto mais e melhor for a produção e quanto maior for o poder de compra dos trabalhadores, porque é com os seus salários, que devem ser justos e pagos atempadamente, que eles adquirem os bens necessários a uma vida estável e condigna.
O empobrecimento dos trabalhadores conduz, inevitavelmente, à falência das empresas, do próprio Estado, da sociedade em geral e, eventualmente, vai enriquecer quem menos precisa e que em nada contribui para a sustentabilidade de uma pessoa, família, grupo e comunidade, com nível e qualidade de vida, e a dignidade que é devida e exigida para com toda a pessoa humana. A mão-de-obra barata, o desemprego, as enormes cargas fiscais, obviamente, conduzem à miséria, à fome e ao suicídio.
Cada vez mais se impõe uma política de salários e reformas/pensões ao nível das exigências da vida moderna, no quadro de uma sociedade exigente, esclarecida e que tem direito a melhores condições de existência digna. A competitividade das instituições, públicas e privadas, não se faz com baixos salários, muito menos com redução dos mesmos: «Com efeito os baixos salários são uma fraca fonte de vantagem competitiva. É mais prudente seguir outras estratégias de vantagem competitiva, como qualidade mais elevada, conhecimentos únicos, inovação de serviço, produto ou processo.» (Ibid.:635).
Identicamente se pode pensar em relação aos reformados/pensionistas que, ao lhes serem reduzidos os seus rendimentos, a respetiva economia familiar sofre perdas que afetam o poder de compra deste estrato da população, que é cada vez mais significativo, quer em qualidade, quer em quantidade.
Verifica-se, atualmente, que é este grupo etário que até já vem suportando parte dos encargos familiares, que não auferem rendimentos suficientes para a sua subsistência. É esta parcela da população que está a substituir o Estado, funcionando como se fosse uma Instituição de Solidariedade Social e Caridade para a família desprotegida, amigos e vizinhos.
Por outro lado, cada vez mais se recorre aos reformados/pensionistas para, de alguma forma, colmatar a miséria em que milhares de famílias estão a sobreviver, e se ainda continuam a sofrer reduções nos rendimentos, para os quais descontaram uma vida inteira, com a agravante de lhes serem aplicados impostos brutais, então o futuro destas sociedades está condenado à mais completa indigência, ao extermínio dos mais fracos, fragilizados e vulneráveis.
Acresce, também, o imperativo do cumprimento dos deveres e direitos, que no início de uma carreira profissional, foram estabelecidos entre as partes, não sendo legítimo, nem justo e, falta saber se, constitucionalmente legal, seja possível alterar as regras a meio da vida e/ou quase no fim da existência das pessoas, precisamente quando elas mais precisam dos seus rendimentos. Exige-se, por isso, o respeito pela dignidade das pessoas em geral e dos mais velhos em particular.
A remuneração, reforma ou pensão são, portanto, instrumentos que possibilitam um nível de vida relativamente adequado às necessidades da pessoa humana, que fortalece a dignidade que lhe é devida, inclusive à luz da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que proporciona maior auto-estima, consoante o valor que a pessoa recebe.
Concordando-se, ou não, pode-se aceitar que: «Embora a maioria das pessoas não trabalhe apenas pelo dinheiro, não é possível viver sem ele. Para além da satisfação das necessidades materiais o dinheiro é um instrumento de satisfação de necessidades sociais, uma fonte de prestígio e de status, e um sinal de reconhecimento que a organização presta à pessoa. O salário (reforma e pensão) ([i]) é também uma forma de a organização retribuir à sociedade e à comunidade o que esta lhe presta. É devido a essa lógica de cidadania que, por vezes, se argumenta que uma organização tem a responsabilidade social de pagar aos seus membros o salário mais alto que lhe for comportável.» (Ibid.:682).

Bibliografia

CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA, (2004), Versão de 2004. Porto: Porto Editora.
CUNHA, Miguel Pina, et al., (2010). Manual de Gestão de Pessoas e do Capital Humano. 2ª Edição. Lisboa: Edições Sílabo, Ldª.

O Presidente da Direção da ARPCA,

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

http://arpcaminha.blogspot.com
http://sites.google.com/site/arpcaminha



([i]) Sublinhado da responsabilidade do autor

domingo, 5 de maio de 2013

Mãe: Uma Dádiva Divina


Todos os dias do ano, das nossas vidas e da história, serão sempre muito poucos para enaltecer e homenagear as múltiplas e profundas dimensões da mulher porque, paulatinamente, com o decorrer dos séculos, a sua influência benéfica tem vindo a fazer-se sentir, bem como o desejo para que ela se posicione no lugar, a que por mérito próprio, tem direito no seio da sociedade, é cada vez mais evidenciado, principalmente por todos aqueles que, sem preconceitos, com toda a humildade e gratidão, reconhecem a insubstituabilidade daquele ser humano maravilhoso.
A Mulher vem assumindo, com espírito de tolerância, também de firmeza, a posição merecida de, em todos os domínios, estar ao lado do Homem, partilhando valores, sentimentos, emoções e funções profissionais, numa sociedade muito exigente, extremamente competitiva, todavia ainda muito dominada por um certo setor masculino que, receando perder prerrogativas, continua, de forma muito sub-reptícia, algo velada e envergonhada, a conceber normas jurídico-legais, para controlar os sistemas: político, religioso, empresarial e ainda familiar, em muitos lares, para evitar a justa ascensão da Mulher.
Entre as muitas e sublimes dimensões que a Mulher assume na sociedade, provavelmente a sua condição de Mãe (quando realmente o deseja e consegue) será, porventura, o seu, ou pelo menos, um dos seus expoentes máximos, porque para além das inúmeras tarefas, difíceis e, quantas vezes, incompreendidas, que quase sempre tem de desempenhar, ela é a única pessoa a poder atingir tão grande felicidade: gerar e dar à luz um filho, com sofrimento, alegria e amor, mas também como resultado da sua entrega generosa a um homem que igualmente ama (ou já amou). Impossível igualar uma relação tão profunda.
Ser Mãe em toda a sua plenitude de Mulher, verdadeiramente humana, em todo o seu esplendor, é uma condição que algum outro ser poderá igualar ou substituir porque, em bora verdade, não só a constituição biológica como a sensibilidade sentimental, são caraterísticas que existem genuinamente na Mulher e, além disso, ela comporta uma intuição muito apurada para a proteção do/s seu/s filho/s, tornando-se pouco credível que ela possa ser substituída a partir da conceção e aplicação de leis.
Importa refletir: positivamente, sobre a importância, que em nossos dias, significa ter Mãe; interessa meditar, profundamente, no contributo que a Mulher-Mãe dá à humanidade, no sentido da criação, educação e formação que ela proporciona aos sues filhos, em vista da necessidade de uma sociedade equilibrada: em princípios, valores, sentimentos, emoções e desenvolvimento harmonioso da pessoa humana.
Mas também é necessário que se valorize, se proteja e se concedam às Mulheres condições para que elas possam exercer o seu papel maior, que é ser Mãe porque, afinal, a Mãe é, por um conjunto de qualidades, capacidades, virtudes, valores e sentimentos, o centro da família, a moderadora, a protetora, a administradora, a educadora, a apaziguadora, a única que, paciente e generosamente, sabe escutar, harmonizar posições dos restantes elementos da família, encobrir quando é necessário amparar.
A família, sendo a base e a principal célula da sociedade, será tanto mais responsável por um mundo justo, quanto melhor for a preparação dos seus elementos constituintes, sendo certo que a figura maternal, quando verdadeira e humanamente existe, é decisiva para a interiorização, realização e consolidação de valores e boas práticas comunitárias, precisamente a partir da intervenção sensata e amorosa da Mãe.
O poder matriarcal, no seio da família, será um fator de estabilidade, uma garantia de compreensão e tolerância, perante situações anormais provocadas, ou não, por algum elemento do agregado familiar, será fonte de amor, de carinho e de aconchego, finalmente, significará o poder moderador, conciliador e solucionador de conflitos. O poder da Mãe impõe-se pelas suas virtudes, valores e sentimentos naturais, não é conquistado pela força, nem pelo divisionismo da família, e muito menos pela intervenção e intromissão de elementos estranhos.
Conhece-se bem o papel da Mãe na criação, educação e preparação para a vida dos seus filhos, pelos quais tudo faz, até ao limite dos maiores sacrifícios. A credibilidade da Mãe e o reconhecimento da sua necessidade formal e prática são de tal maneira visíveis e aceites que, em grande parte das separações matrimoniais, quando há filhos, estes são entregues à guarda da Mãe, naturalmente, com algumas exceções bem fundamentadas.
Igualmente se julga saber que o abandono dos filhos, por parte do pai, é muito maior do que pela Mãe, como também parece um dado adquirido que, na maior parte das situações, são os avós maternos que apoiam a mãe na criação e educação dos filhos, podendo-se inferir que, em regra, os pais, aqui reportados aos homens, são menos responsáveis do que as mães, em muitas situações, designadamente: por imaturidade, por egocentrismo, por não serem capazes de abdicar de certos vícios e formas de vida.
É indiscutível que há muitas e boas exceções, como também é verdade que existem mães que se revelam incapazes para cuidar dos seus filhos, nalguns casos, porém, sem terem qualquer culpa, porque são surpreendidas por homens e/ou jovens sem quaisquer princípios, valores e sentimentos humanos.
O exercício das funções de Mãe, quando assumido em todas as suas dimensões, enfrentando diferentes e complexas dificuldades, revela bem a grandeza desta condição sublime da Mulher-Mãe, eminentemente feminina, e que por tudo isto deveria ser mais respeitada, mais protegida, mais reconhecida nos seus direitos, enquanto Mulher, Cidadã e Trabalhadora.
Não é nada fácil ser Mãe, ainda que a análise parta de um homem, na medida em que ao longo da história da humanidade, a Mãe tem arcado com as maiores responsabilidades na família e na sociedade porque: em primeira instância, é ela que prepara homens e mulheres para o mundo; é ela que ensina as primeiras palavras, as boas-maneiras, os bons hábitos.
Quem não se sente honrado, feliz e abençoado por ter a Mãe presente, sempre do seu lado, nas alegrias e nas tristezas, nos sucessos e nos fracassos, na saúde e na doença? Quantas pessoas em geral, e quantos filhos, em particular, suspiram pela sua Mãe, ou porque ela faleceu, ou porque teve de abandonar o lar, por razões que nem sempre serão da sua exclusiva responsabilidade? A Mãe, em toda a sua plenitude, é indispensável.
Quantas vezes, ao longo da vida, recorremos à nossa Mãe: para nos ajudar, material e/ou espiritualmente; quantas vezes ela nos negou a sua ajuda? Quantas vezes nós nos interrogamos, profundamente ansiosos: Mãe, onde estás? Ajuda-me! Não me abandones, Mãe!
É muito difícil refletir-se e escrever-se sobre a Mãe, em geral; e sobre a nossa Mãe, em particular, sem que os sentimentos de amor, de saudade ou até de arrependimento, pelo que de errado tenhamos feito, contra a nossa Mãe, nos chamem à razão, nos alertem para a riqueza que temos, ou perdemos, ou ainda que maltratamos.
De facto, ter Mãe é a maior riqueza que se pode obter neste mundo, e quando a nossa Mãe se nos revela com todo o seu amor, sem limites, nem julgamentos e condenações prévios, nem exigências de nenhuma natureza e que, simultaneamente, nos defende, nos elogia, nos projeta para a vida e para a sociedade, então consideremo-nos as pessoas mais felizes e mais ricas do mundo, porque é impossível uma felicidade maior do que termos a nossa Mãe.
Reconhecendo-se como insubstituível as funções de Mãe, numa sociedade civilizada, defensora e praticante dos mais elementares valores do amor, da dignidade e da felicidade, é tempo de se engrandecer a Mulher, nesta sua dimensão ímpar, concedendo-lhe as condições necessárias para que ela tenha um papel mais ativo e decisivo na formação das mulheres e dos homens que, num futuro próximo, nos vão governar, porque cada vez mais se faz sentir a necessidade de uma sociedade mais humana, mas justa e fraterna.
As Mães de todo o mundo transportam nos seus ventres e lançam para a luz do dia crianças que carecem, não só enquanto tais, mas durante toda a vida, dos valores e sentimentos que suas mães lhes podem e, certamente, transmitem. Nota-se muito bem uma criança que está sob a proteção e amor de sua mãe, daquela que não tem ou nunca teve essa bênção divina.
Como é triste ouvir os choros lancinantes de uma criança, ou até de um adulto, a chamar pela sua Mãe, a pedir-lhe socorro, a pedir-lhe comida, agasalho, proteção e amor. Como estas situações penetram bem fundo na consciência de quem sabe o que é ter uma Mãe, o sorriso carinhoso da Mulher que primeiro se ama na vida, a doçura de um beijinho, a suavidade de uma carícia terna e meiga e, também de uma “palmadinha” para nos chamar a atenção das nossas traquinices.
Como é bom ter a Mãe do nosso lado, sem condições, nem exigências, e sempre junto de nós, qual baluarte de defesa das nossas fragilidades! Com é imenso o amor de Mãe que pelos seus filhos é capaz de vencer tudo e todos. Como é essencial o acompanhamento de uma Mãe, ao longo das nossas vidas. Como o mundo seria melhor se nós ouvíssemos os sábios conselhos das nossas mães, os valores e sentimentos que elas nos transmitem.
E como será bom para uma Mãe receber dos seus filhos o respeito, a admiração, o amor incondicional. E, quando necessário, tal Mãe poder contar com o filho, igualmente, do seu lado e com ele resolver os problemas da vida. Como será gratificante para uma Mãe saber que o seu filho lhe proporcionará as melhores condições de vida, que a visitará frequentemente, ou que a terá junto de si, se a vida lhe permitir porque, em quaisquer situações, a Mãe saberá sempre compreender o filho e enquanto puder, mesmo na velhice, mesmo privando-se de bens essenciais à sua vida e saúde ela, essa Mãe extremosa e amorosa, continuará a velar pela felicidade do seu filho e, quantas vezes, dos netos.
Seria muito significativo e revelaria boa formação e sentimentos nobres, toda aquela pessoa que, sendo detentora de um qualquer poder, especialmente os líderes: políticos, legislativos e executivos, bem como de todas as atividades, se adotassem medidas justas, humanas e adequadas à proteção das famílias em geral, e das Mães em particular.
 Afinal foram, continuam a ser elas, as nossas Mães, que nos ajudaram a chegar até onde estamos, a elas devemos muito dos nossos sucessos, do nosso conforto e felicidade. Sem as nossas Mães do nosso lado, sem o seu amor, carinho, tolerância e auxílio, provavelmente, não passaríamos de vulgares criaturas, sem valores, sentimentos e, eventualmente, sem rumo na vida.
Por tudo isto, e não é nada pouco, governantes, que também são filhos, protegei as vossas Mães, as nossas Mães, defendei as Mães de todo o mundo, porque sem elas, seríamos incompletos. Amemos as nossas Mães, respeitemo-las através do Amor, da Doação, da Ética, da Gratidão, da Lealdade e da Honestidade. É o mínimo dos mínimos que por elas podemos fazer.
Mãe Querida, onde quer que estejas, um beijo, com imenso amor, do teu filho. 

O Presidente da Direção da ARPCA,

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo