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domingo, 31 de março de 2013

Páscoa: Ressuscitar a Dignidade


Ainda no início do século XXI, mas já na segunda década, numa Europa milenar de cultura, tradições, valores e detentora de uma civilização, que se tem pretendido humanista, assente nos pilares da Democracia, do Direito e do Cristianismo vive-se, todavia, uma situação preocupante, pelo menos em alguns países, nestes se incluindo Portugal que, apesar de pobre, é constituído por um povo humilde, trabalhador, honesto e educado, uma população frequentemente sacrificada, submetida às mais cruéis desfeitas, a principal das quais, a perda de quase tudo o que ao longo de vidas de trabalho, poupanças, impostos em cima de impostos, acaba por ser despojada de direitos e até do próprio património material, se não cumprir as leis injustas que lhe estão a ser, insensivelmente, impostas, reconhecidas como tais, pelas mais altas instâncias dos Poderes.
Os crentes católicos vivem uma quadra festiva, festejam a Ressurreição de Cristo, cuja vida de sofrimento, de bem-fazer, de amor pelo seu povo, pela intransigência na defesa dos mais fracos O levou à morte, desumana e violenta.
A vida de Cristo, ainda que interpretada no contexto simbólico, não deixa de ser um exemplo, pelo padecimento a que esteve sujeito, pelas humilhações por que passou e, não obstante a crueldade dos seus adversários e algozes, a todos perdoaria e ressuscitaria em glória, com dignidade e com uma mensagem de esperança, na salvação da humanidade.
O exemplo de Cristo, hoje mais do que nunca, deverá constituir uma referência universal, independentemente de quaisquer ideologias políticas, religiosas, económicas, financeiras e tantas outras. A filantropia que a sua vida demonstrou, deveria ser um incentivo para toda a humanidade, no sentido da recuperação da dignidade, que é um valor essencial de toda a pessoa humana.
Com efeito, a dignidade em muitos setores da atividade humana, mais parece um valor utópico, que terá sido ignorado pela enormidade e colossal humilhação, que tem vindo a ser infligida aos cidadãos e, por isso mesmo, é tempo de ressuscitar a dignidade que foi brutalmente afastada dos principais valores, direitos e deveres cívicos.
Páscoa, tempo de reflexão, de realinhamento de políticas, de dignificação das pessoas, de instituir um pouco mais de humanismo, porque há muito mais vida para além de mercados, de dívidas públicas, de sacrifícios desumanos, de negação de direitos, pagos e adquiridos. Muitos Portugueses já percorreram o longo e espinhoso calvário da austeridade, já foram mortos nos seus direitos, já perderam muitos dos seus bens e passaram a viver na rua e têm dificuldade em manter a esperança na ressurreição da própria dignidade humana.
É tempo de se enaltecer a simbologia deste período que, justamente, nos transmite uma mensagem de alegria, de possibilidade de recuperação de princípios, valores e direitos perdidos, ignorados e/ou, simplesmente, retirados, injustamente. É um tempo em que permite pensar-se, adequadamente, sobe o papel que cada pessoa tem de desempenhar neste mundo, e nesta vida, porque, tal como Cristo, um dia, eventualmente, mais depressa do que se pensa, tudo acaba, ficam apenas as memórias das boas e más ações que se praticaram.
E se o Natal é tempo de Família, de união, de uma vida diferente, justamente, a partir do nascimento de Cristo; a Páscoa é o significado dessa mesma vida, de uma Pessoa que a colocou ao serviço dos seus discípulos, do seu povo, da humanidade; que a ofereceu, generosa e sofridamente a esse mesmo povo, sabendo, contudo, que a recuperaria com esplendor, glória e dignidade. Os Portugueses querem, também, ressuscitar da morte que lhes foi imposta, qual condenação por crimes que não cometeram. Querem recuperar a alegria de viver com dignidade.
Acreditando que Jesus Cristo ressuscitou ao terceiro dia, então e por analogia, devem os Portugueses regressar à vida digna, rapidamente, porque há alguns anos que vêm sendo mortos, paulatinamente, nas suas mais elementares condições de vida, como sejam a proteção à saúde, ao emprego, à educação/formação, à segurança social, em todas as fases da vida, enfim, recuperar um verdadeiro e justo Estado Social, com qualidade, imparcialidade e em permanência, porque os Portugueses, na sua esmagadora maioria, já deram, ao longo das suas vidas e continuam dar o que, praticamente, já pouco lhes resta, para alguns, porque para outros, a miséria é o que têm para oferecer.
No meio de tanta desgraça, de tanta injustiça, de tanto desemprego, miséria, fome, doença e suicídio, os Portugueses, solidariamente, ainda resistem, desarmados, à mercê de um adversário insensível, desumano, poderoso e violador de direitos adquiridos.
Acreditam, ainda, numa ressurreição da sua dignidade, pelo menos enquanto pessoas humanas, de deveres e direitos, e acreditam que, mais tarde ou mais cedo, o seu próprio “Domingo de Aleluia” há-de chegar, que os responsáveis por esta morte lenta, terão de prestar contas, e vão ser sancionados, cívica e democraticamente, dando, ainda e generosamente, mais uma oportunidade de arrependimento de quem está envolvido e tem culpas nesta calamidade nacional. Esse dia, o da Redenção, chegará se Deus e as pessoas assim o conseguirem e, certamente, a vitória dos oprimidos será o resultado final.
Parece inadmissível que filhos de um mesmo povo se coloquem contra os seus progenitores, contra os seus concidadãos, que por eles tudo deram, para os elevar aos estatutos que hoje possuem. Como é possível que se decretem tão injustas e desumanas medidas contra avós, pais, irmãos, parentes, amigos e cidadãos em geral, por obstinação, por teimosia, por avidez de demonstração de um poder que, generosamente, foi entregue, confiando em promessas que pareciam sinceras, agora se confrontem com a deslealdade?
Páscoa, tempo de Ressurreição, de alegria, de libertação de uma morte lenta que conduziu ao túmulo da brutal austeridade. Tempo para uma nova esperança, para se acreditar nas potencialidades de cada pessoa humana, digna, verdadeiramente humilde, honesta e trabalhadora.
Confie-se, portanto, nas capacidades morais, éticas, intelectuais e físicas de cada Português, de cada família, das empresas e das instituições de solidariedade social. Acredite-se que o dia da libertação poderá estar próximo, que será possível a reconciliação, porque é isso o que mais importa.
O mundo e a vida vão continuar, sem dúvida. Apesar do muito mal que alguns têm vindo a fazer a um povo obediente, democrático, respeitador da legalidade, pacífico, esse mesmo povo, saberá perdoar generosamente, sem contudo abdicar das sanções que democraticamente devem ser aplicadas a quem, intencional e persistentemente, prevaricou contra esse mesmo povo humilde, não com qualquer intenção vingativa, nem sob nenhum sentimento de ódio, apenas como exemplo para situações futuras a evitar.
É fundamental continuar a resistir, até ao último “cêntimo”, até ao último sopro de vida, porque é decisivo acreditar em melhores dias, em muitas e alegres Páscoas que, seguramente,  vão continuar a existir, porque é um direito de toda a pessoa humana, ser feliz, digna, respeitada e ter uma vida confortável, protegida por um Estado Social verdadeiramente justo e humano, também moderno e sustentado nos valores da democracia, do direito e da religião.
Confie-se nas novas gerações, também elas tão sacrificadas, humilhadas, sem garantia de um futuro promissor. A ressurreição da sociedade será impulsionada por estas gerações talentosas, generosas, solidárias com os mais fracos, na circunstância, com os seus pais e avós, tão mal tratados por um Estado insensível às situações mais degradantes, de tantos milhares de pessoas.
A Páscoa alegre e feliz avizinha-se, certamente apoiada por milhares de jovens que transportam nos seus corações a bondade, a determinação de proporcionar às gerações mais iodosas o conforto, a tranquilidade, a segurança a que legal e legitimamente têm direito, porque a classe etária sénior já não tem força, poder e meios para lutar contra tantas arbitrariedades, injustiças: para a maioria; exceções para algumas minorias. O capital humano mais valioso será utilizado, brevemente, ao “terceiro dia”.
Por isso, as gerações que se aproximam do fim das suas vidas, apostam na educação/formação, no emprego, na preparação cívico-democrática dos seus filhos e netos, porque é nestes que se acredita, é nestes que reside uma nova Páscoa, alegre, feliz, igual para todos, onde muitos dos valores serão, também ressuscitados, em novos e mais justos conceitos. Espera-se uma Páscoa Redentora, a curto prazo, porque para isso as gerações mais antigas têm vindo a investir tudo o que possuem e os frutos vão surgir, com intenso esplendor.
Para esta nova geração que, pela sua inteligência, preparação e generosidade, está disponível, apela-se para que não adote os procedimentos que ultimamente, também, uma outra geração, tem vindo a aplicar, impavidamente, aos seus concidadãos.
A esta promissora geração pede-se sensibilidade, carinho, respeito e medidas que protejam, justamente, os velhos avós, pais e todas aquelas gerações que contribuíram para uma sociedade melhor. A esta nobel geração pede-se que aproveite a sabedoria, a prudência, a humildade e a gratidão dos seus progenitores, dos seus antepassados, até à enésima geração.
 É na reconciliação de gerações, na solidariedade entre elas, enfim, no respeito e no amor que são devidos àqueles que, à sua maneira e com os recursos que possuíam, conduziram as novas gerações a um novo poder democrático, justo e solidário. Ressuscite-se, rapidamente, a dignidade da pessoa humana. Viva-se uma nova Páscoa da Libertação Redentora. 

O Presidente da Direção da ARPCA,
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo



 

 

 

 
 

domingo, 24 de março de 2013

Ação e Pensamento em António Sérgio


Decorreu, em 1983, o centenário do nascimento de António Sérgio, (1883-1969). No dia 10 de Junho, desse ano, foi condecorado, a título póstumo. Na ocasião foi denominado como ensaísta, crítico e filósofo.
Mas seria de facto, António Sérgio, um filósofo? O seu pensamento será genuinamente original ou apenas uma boa teoria, assente numa boa construção eclética? E terá a sua Filosofia algum sentido? Certamente que para alguns autores, Sérgio não será um filósofo, pois não teria construído qualquer sistema; outros, porém, reconhecem-lhe características filosóficas, se se considerar o ecletismo como uma corrente do pensamento reflexivo.
De facto, referencia-se António Sérgio como um grande admirador e, por que não, um seguidor, de alguns temas, dos mais notáveis racionalistas e iluminados estrangeiros, sem descurar o clássico e antigo Platão, passando para a Idade Média com Santo Agostinho, S. Tomas e na Idade Moderna com Descartes, Espinosa, Kant. Possivelmente, tantas e tão importantes influências, não lhe permitiram elaborar e sistematizar, de forma estruturada, uma teoria filosófica sobre o mundo e sobre o homem, o que, apesar disso, não lhe retira o mérito noutras áreas.
Tem sido referido, ao longo da História do Pensamento, que os problemas fundamentais da Filosofia são, em qualquer época, muito semelhantes. Abordar tais problemas, situações e temas implica um repensar retrospetivo. Neste particular, diz-se que António Sérgio não foge à reflexão sobre a problematicidade dos assuntos, anteriormente analisados por outros pensadores. Talvez resida aqui uma grande dignidade a par da sua atitude humilde.
Sabendo ele que o filósofo não é, somente, um homem ilustrado e pensador, mas antes de mais, uma pessoa que repensa a Filosofia. Assumindo atitudes radicais quanto tais se justificam. Postura crítica e problemática, de tal sorte que, qualquer que seja a questão, esta possa continuar aberta a toda a discussão e suscetível de opiniões e soluções diferentes.
Considere-se, então, António Sérgio, um filósofo, talvez diferente daquele conceito em que por vezes se interiorizou, ou seja, no sentido especulativo, que nada resolve e tudo questiona.
Aceite-se entender António Sérgio como um filósofo da ação, porque a sua filosofia será, primeiramente, uma teoria do conhecimento, uma epistemologia, um pragmatismo, estimulando o progresso em ordem a beneficiar a comunidade: quer o bem material, quer a emancipação económica, eram simples instrumentos do bem moral, a partir, justamente, da emancipação moral, da pedagogia do ser humano, o qual, deveria ser ativo e culto, numa sociedade modificada.
António Sérgio agia porque pensava. A ação articulava-se com o seu pensamento, no sentido de contribuir para a formação do homem, precisamente, a partir de uma educação cívica que proporcionasse à sociedade uma vida de respeito e cumprimento de valores, de princípios, de direitos e deveres humanos. É assim que ação e pensamento adquirem um carácter ético.
Além de racionalista, Sérgio é também um idealista, embora reconhecendo que o racionalismo clássico é abstracto, porque os seus defensores negam a possibilidade de o homem se fazer a si mesmo, através de atos de liberdade absoluta.
O seu racionalismo, não impedia de idealizar projectos concretos, porque, segundo ele: «A inteligência como eu a concebo, não minora a tal realidade: inteleccionar ao que me tem parecido, é perceber o real, o concreto, o particular.» (SÉRGIO, 1976:205).  
É com esta simples e primeira reflexão que se parte para a abordagem do caso exemplar de António Sérgio, analisando a sua obra sobre educação cívica, afinal tão necessária para melhor se entender a importância de certos valores: estudo, educação, trabalho. Assim podem-se cumprir e fazer respeitar os direitos humanos, hoje – 2013.

Bibliografia

SÉRGIO, António, (1976). Obras Completas: Ensaios, 2ª edição, Tomo I, Lisboa: Sá da Costa.

O Presidente da Direção da ARPCA,

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo


 

domingo, 10 de março de 2013

A Mulher em todo o seu Esplendor


São muitos os dias nacionais e internacionais que ao longo do ano se evocam e festejam, com a pompa e circunstância que são possíveis. Para cada tema, a efeméride celebra-se no dia que, consensualmente, tem sido aceite, embora, também, já se tenham verificado alterações, como por exemplo em relação ao dia da mãe, todavia, a maioria das comemorações, nos respetivos países e/ou em todo o mundo se mantenha em data fixa.
Estabeleceu-se, internacionalmente, o dia oito de Março, para se festejar a importância da Mulher em todo o mundo, para que todos os seres humanos rejubilem e prestem homenagem às Mulheres, elas próprias incluídas nas homenagens que lhes são, justamente, dirigidas, elas mesmas o centro de todas as atenções, naquele dia.
Paradoxalmente, aquele dia não é universalmente vivido, sentido e festejado, porque a Mulher, infelizmente, ainda não ocupa o lugar, no seio da sociedade que, por mérito próprio, tem direito, reconhecendo-se, entretanto, que, ainda que timidamente, tem havido alguma evolução favorável ao reconhecimento da sua dignidade.
Numa visão generalista, e de muito fácil entendimento, pode-se admitir, como regra universal, que a Mulher é a pessoa que primeiro se ama, por quem se tem um grande carinho, a quem se pede refúgio, que dela se recebe amor incomensurável, proteção incondicional, compreensão e tolerância sem limites. Esta Mulher, que a maioria dos seres humanos começa a amar, e por ela a ser amado, é o primeiro porto-seguro, a nossa fonte de alegria, o nosso primeiro e grande amor, é a nossa mãe.
Esta função, este elevado e nobilíssimo estatuto, sublime e inigualável, só a ela pertence, é como que uma bênção divina, uma dádiva do Criador, a notabilíssima missão de ser mãe, por isso, mas não só, se deveria reconhecer, na Mulher, o seu papel insubstituível, a premente necessidade do reconhecimento da sua importância e da sua dignidade, a Mulher que pelo seu “sexto sentido” consegue, quantas vezes, evitar as piores desgraças e resolver, carinhosamente, problemas extremamente complexos, no seio da família e da sociedade.
Dia internacional da Mulher, pelo qual, em todo o mundo civilizado, os valores do amor, do matrimónio, da maternidade, da dádiva total, se festejam, com mais ou menos autenticidade, sinceridade, respeito e reconhecimento. A Mulher-Filha, a Mulher-Esposa, a Mulher-Mãe, afinal, a Mulher, como que glorificada, merecidamente, afirme-se, desde já, porque ela, que gosta e respeita os pais, que ama o seu companheiro, a mãe extremosa, que gerou e transportou o filho no seu ventre, a Mulher-Trabalhadora que, no limite das suas forças, é capaz de dar a vida por aqueles que verdadeiramente ama. A Mulher em todo o seu esplendor.
Mas a Mulher, enquanto filha, é importante para os seus pais, seguramente, para a sua mãe, também esta Mulher, que ouve da filha todos os seus choros, tristezas, alegrias, aspirações, dificuldades. Como esta Mulher-filha ama a sua mãe, como que numa simbiose de amor, a ela está, demiurgicamente, ligada, mesmo quando a vida é adversa, ela procura na mãe, ou esta na filha, uma interpretação, os conselhos, ensinamentos e compreensão, porque esta filha sabe muito bem que um dia também poderá vir a ser mãe e conhece o aforismo popular, segundo o qual: “Filha és, mãe serás, como fizeres, assim receberás”.
Existe, na maior parte das pessoas, uma espécie de cumplicidade entre estas duas mulheres: mãe e filha, e/ou vice-versa. Em oito de Março festeja-se o dia da Mulher, não o dia da mãe, nem o da filha (haverá o dia da filha?), não o dia da esposa, não o dia de avó ou de qualquer outro parentesco, o que se comemora é o dia da Mulher, em todo o seu esplendor, na plenitude das suas capacidades, dos seus valores, dos seus direitos e deveres, dos seus sentimentos, sem dúvida.
É a mulher que está em nossas vidas, mais ou menos profundamente, mais ou menos amada, querida, desejada, protegida, acarinhada, mas também ela protetora, vigilante, trabalhadora, rainha dos nossos corações. Mulher com letra grande, que sabe perdoar, que quando ama se entrega totalmente, sem reservas, com esperança e determinação em conceder a maior felicidade ao ser amado. Mulher que se revela em toda a sua plenitude.
É impossível conceber o mundo sem a mulher, também ela na sua qualidade de esposa, companheira indefetivel e amante do seu marido, cúmplice, na vida externa como na intimidade do leito conjugal, conhecedora das dificuldades mais íntimas do seu cônjuge, compreensiva, tolerante nos fracassos e incentivadora para vencer obstáculos.
Mulher que ao lado do seu amor conjugal, com ele enfrenta as adversidades da vida, com ele soluciona a maior parte dos problemas e com ele tanto vive as alegrias, quanto as tristezas, Mulher que não está atrás nem à frente dos êxitos do seu companheiro, mas está sempre ao seu lado, com os mesmos méritos, com idênticas capacidades, com iguais possibilidades de vitória. Mulher que é capaz de dar a vida por quem ama verdadeiramente.
É esta Mulher, enamorada, esposa, companheira que, ao lado do seu ente amado, enfrenta o mundo, sem medos, com firmeza, com amor e com sentimentos nobres. É esta Mulher que sabe guardar, num “cantinho do seu coração”, os mais profundos, quanto notáveis e sublimes sentimentos, que jamais praticará qualquer ato de deslealdade contra a pessoa que, autentica e intimamente ama ou, ainda, que admira, gosta, acarinha ternamente a quem ela sabe que lhe quer bem, que também aprecia e ama com respeito e preocupação.
A Mulher de sentimentos profundos, de sensibilidade extremamente apurada, que tem o seu próprio e salutar orgulho, para o bem, como também para a sua defesa, quando se sente ou é atacada por quem quer que seja. Mulher que no fundo da sua alma, quantas vezes sofre, em silêncio, ferida no seu próprio amor, na sua dignidade, precisamente por quem não tem quaisquer motivos para a agredir e seja qual for o tipo de agressão.
Admiremos a mulher que, mesmo perante um amor proibido, ou não correspondido, consegue sofrer em sossego ou, quando sabe que é amada, não pode corresponder, contudo, tem a generosidade de sorrir, de compreender, de tolerar, aceitando, mesmo assim, com respeito pelo seu legítimo cônjuge, uma amizade muito sentida, de um amigo muito especial. Que grandeza de alma.
O mundo, na sua componente masculina, parece que ainda não acordou para reconhecer a Mulher como uma pessoa insubstituível, indispensável e presente em tudo o que respeita ao bem-comum, ao amor, à felicidade e à paz. A natureza dotou o mundo com dois seres, feitos para se “encaixarem” um no outro: a fêmea e o macho; o feminino e o masculino; a Mulher e Homem, porque o equilíbrio resultará, precisamente, da harmonia dos contrários.
Dia oito de Março, dedicado, universalmente, à Mulher, em todas as suas dimensões: filha, namorada, esposa, mãe, companheira mas, certamente, trabalhadora incansável, quantas vezes desempenhando diversos papéis, quase em simultâneo, acumulando trabalho, responsabilidades, enfrentando dificuldades que derivam da organização, gestão e conforto do lar, no qual, frequentemente, é ela a única a zelar por tudo e por todos, quase sempre, com um sorriso, com um semblante de alegria, de felicidade e, carinhosamente, auxiliadora.
Qualquer pessoa, minimamente informada sabe que: «Uma das principais dificuldades das mulheres que trabalham é equilibrar a carreira e a família numa escala de interesses e prioridades em que, se uma pode ser mais importante do que a outra, se uma pode em determinado momento exigir maiores atenções do que a outra, sem ambas a realização não é plena.» (DUARTE, in CANHA, 2010:74).
Neste dia mundial, especial e meritoriamente dedicado à Mulher, compete-nos, de uma vez por todas, reconhecer-lhe a grandiosidade dos seus valores, a profundidade dos seus sentimentos, as dimensões em que ela é capaz de se desdobrar, pensando e agindo em favor dos mais carenciados, dos mais frágeis, daqueles que ela verdadeira e intensamente ama.
Hoje, alguém que se preze da sua boa-formação não pode continuar a discriminar, negativamente, a Mulher, independentemente do seu estatuto pessoal, social, profissional e cultural. Hoje, já em pleno século XXI, é tempo de colocar a Mulher ao lado do Homem, reverenciar todas as suas capacidades e esplendor. O mundo seria um espaço de trevas, de insensibilidade e, eventualmente, em certas circunstâncias, de selvajaria, se a mulher não existisse.
Mas a Mulher não se circunscreve, apenas, aos papéis de filha, namorada, esposa, mãe, companheira. A sua intervenção, na sociedade, tem outra vertente, igualmente, essencial à construção de um mundo melhor, mais abastado e confortável, porque ela também produz, contribui para a riqueza da família, da empresa, da instituição, do país.
Ela exerce, atualmente, profissões que, até há pouco tempo, estavam reservadas aos homens e, tanto quanto provam os estudos científicos, com resultados idênticos, aos daqueles, na maioria das atividades em que se envolve. Evidentemente que não há regra sem exceção, mas também é bom recordar que: «A compatibilização da vida pessoal com a profissional é um dos principais desafios que têm de enfrentar as mulheres que apostam numa carreira – e, fruto da alteração de mentalidades, os homens também, justiça lhes seja feita.» (Ibid.:85).
A título, meramente ilustrativo invoquem-se alguns bons exemplos de profissões exercidas por Mulheres, que, inequivocamente, revelam as suas capacidades inteletuais e também físicas, incluindo aquelas atividades que, desde sempre, desde logo na antiguidade, época medieval até, praticamente, aos nossos dias, estiveram reservadas aos Homens, como as Forças Armadas e de Segurança, medicina, magistraturas, construção civil, pescas, entre muitas outras que, agora, seria exaustivo elencar.
Recorramos, então, a algumas reflexões, provenientes de quadrantes profissionais do ensino e formação, embora de domínios do conhecimento diferentes, dos dois sexos, relativamente à igualdade de género para ficarmos com uma ideia sobre a importância da Mulher no mundo atual.
«Analisando a evolução da sociedade portuguesa a situação das mulheres melhorou e muito, globalmente houve mudanças que devem ser consideradas como altamente positivas para a situação das mulheres, mas em comparação com a situação dos homens, em algumas áreas, ainda existe muita desigualdade de oportunidades (quer no género, no acesso ao emprego, na evolução da carreira, igualdade salarial, articulação vida profissional e vida familiar.» FERNANDES, 2010, in http://igualdadegenero2010.blogspot.pt/, consultado em 03.03.2013).
«O grande desafio do século XXI é sem dúvida o estabelecimento do mainstreaming, ou seja, a criação de uma cultura política e administrativa onde os princípios de igualdade sejam colocados em prática e não apenas aceites ou promovidos. É vital promover, defender e resgatar os direitos da mulher, buscando garantia de igualdade no exercício de direitos e deveres, principalmente aumentar os níveis de representatividade política, articulando os meios que favoreçam a inserção da mulher na sociedade civil organizada, elevando a cidadania.» (NASCIMENTO, 2010, in http://igualdadegenero2010.blogspot.pt/, consultado em 03.03.2013).
 «Não só as mulheres maltratadas como, muitas vezes, as/os filhas/os também são maltradas/os. O desrespeito e a humilhação levam à vontade de não ir à escola, levando ao consequente abandono escolar. (…) Estando inseridos numa sociedade que discrimina em termos de igualdade de género, a escola desempenha um papel muito importante na construção de um espaço generalizado para, assim poder acabar com este problema de desigualdade contínua e evolutiva.» (RAMALHOSA, 2010, in http://igualdadegenero2010.blogspot.pt/, consultado em 03.03.2013).

«O futuro do mundo passa, igualmente, pelas mulheres e pelos homens. Ninguém poderá afirmar, com rigor científico, qual dos géneros vai ter mais influência e/ou importância, sabendo-se, contudo, que ambos vão ser decisivos para o bem ou para o mal. As instituições públicas e privadas ao não praticarem a discriminação sexista só terão a ganhar, como de resto já afirmaria ROMÃO, (2000:32): “Ao difundir que a sua empresa pratica uma política de igualdade estará a aumentar as possibilidades de atrair uma gama mais vasta de candidatos/as qualificados/as e de conservar o seu pessoal. Tornar-se-á também mais competitiva, porque reduzirá os custos de recrutamento e formação inerentes a uma grande rotação de pessoal.”» (BÁRTOLO, 2010, in http://igualdadegenero2010.blogspot.pt/, consultado em 03.03.2013).

Hoje a Mulher não se circunscreve, apenas, ao mundo, com todas as suas faculdades e exuberância, em todo o seu esplendor e carisma, cada vez mais acentuado. Podemos considerar, a partir de agora, que a Mulher pertence, efetivamente a uma elite, no sentido em que: «Uma elite é constituída por pessoas que pelo seu valor, pelo seu trabalho, pela sua inteligência, se notabilizam e se diferenciam das restantes. Têm uma autoridade, não um poder.» (BALDAQUE, in CANHA, 2010:214). 


Bibliografia. 

BÁRTOLO, Diamantino Lourenço Rodrigues de, (2010). Liderança Feminina Empresarial, in http://igualdadegenero2010.blogspot.pt/, consultado em 03.03.2013.

CANHA Isabel, (2010). As Mulheres Normais Têm Qualquer Coisa de Excepcional, histórias inspiradas de vidas extraordinárias, Lisboa: Bertrand Editora

FERNANDES, Cecília Manuela Gil Carrondo, (2010). Profissões têm sexo?, in http://igualdadegenero2010.blogspot.pt/, consultado em 03.03.2013.

NASCIMENTO, Sílvia Castro Paço, (2010). A Mulher na Política, in http://igualdadegenero2010.blogspot.pt/, consultado em 03.03.2013.

RAMALHOSA, Rui José Gomes, (2010). Educação para a Igualdade de Género, in http://igualdadegenero2010.blogspot.pt/, consultado em 03.03.2013.

ROMÃO, Isabel, (2000). A Igualdade de Oportunidades nas Empresas. Gerir para a Competitividade. Gerir para o Futuro. Lisboa: Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres – Presidência do Conselho de Ministros. Coleção Bem-estar, Nº 1


O Presidente da Direção da ARPCA,

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo


domingo, 3 de março de 2013

Valores Religiosos: Fundamentos Universais para a Pacificação


Acredita-se que a esmagadora maioria da humanidade é constituída por pessoas crentes, tementes e religiosas, qualquer que seja a religião interiorizada e praticada. O ser humano, na sua fragilidade e limitações, não tem, ainda, respostas para as questões essenciais e justificativas do acontecer bio-espiritual que lhe é intrínseco.
Biologicamente é um ser finito, cuja vida existencial terrena é incapaz de delimitar no tempo, e até no espaço; espiritualmente, a sua ignorância e preconceito não permitem explicações convincentes e, cientificamente verificáveis.
A agravar toda esta situação de insegurança, insuficiência e desconhecimento está o fim-último de cada indivíduo, porque continua a desconhecer-se a origem imaterial do homem, e o seu fim é, igualmente, uma incógnita.
A ignorância de como, quando, onde, porquê e para quê deste mesmo fim-último, e o “para onde vamos”, é dramática, porque até ao momento a ciência, a técnica e todo o instrumental tecnológico, foram incapazes de explicar e provar o que quer que seja neste domínio, por enquanto insondável, algo misterioso, do homem espiritual.
Impossibilitado de vencer o drama pelos recursos materiais que dispõe, o homem crente volta-se, esperançadamente, para os valores religiosos, nos quais busca a explicação para as situações que desconhece e o atormentam e também para encontrar as soluções para os conflitos que ele próprio cria, alimenta, mas nem sempre sabe e/ou quer resolver.
O grande conflito, porém, continua entre a vida e a morte, porque nascer, viver e morrer é o percurso natural de todo o ser humano, tal como outros seres animais. O homem crente acredita em certos valores religiosos, de entre os quais, muitos creem numa nova vida, renascendo depois da morte física.
O acontecimento inevitável é, efetivamente, a morte biológica, o desaparecimento do corpo físico e este, tanto quanto é dado saber, não renascerá (excetuando-se, para os crentes, os milagres da ressurreição, como por exemplo, a passagem bíblica de Lázaro).
O “valor” ressurreição para os crentes, independentemente do que ressuscita: corpo, identidade ou qualquer outro elemento constituinte da existência humana, alimenta a fé num mundo melhor, num mundo pacífico, do qual o mal tenha sido erradicado.
Durante a vida material o ser humano conduz-se segundo regras, usos, costumes, tradições, leis, através de um longo processo de aprendizagem, nunca concluída, vulgarmente denominada por socialização. A vida existencial terrena é programada em função de valores, princípios, interesses e objectivos a atingir.
A luta de cada indivíduo, de cada grupo e de cada nação, para alcançar os resultados previamente esperados, por vezes é cruel, violenta, absurda e desumana. Os conflitos proliferam e poucos são resolvidos com dignidade para as partes conflituantes. Situações de autênticas guerras sanguinárias ocorreram em pleno século XX e passaram, sem soluções à vista, para estes novos século e milénio. O fim, deploravelmente, não estará no horizonte temporal.
E quanto à morte? O que se sabe para lá da morte física? E quanto à morte intelectual? Como se processa e caracteriza? E haverá morte espiritual? Mas o que é o espírito: Alma? Consciência? Intelecto? Que tipo de sofrimento a morte espiritual envolve?
E pode-se morrer de forma diferente da habitual, por exemplo, para um determinado projecto e renascer para outro? Se a resposta for afirmativa, então é possível morrer várias vezes e renascer outras tantas, porque: «Talvez nossa morte ocorra a cada busca que chega a um termo, a cada avanço e a cada recuo, a cada vivência; talvez morrendo aqui e ali, algumas pessoas consigam seguir vivas. (…) Morrer pode trazer grande bem à vida da pessoa; em muitos casos, pode ser uma recomendação médica, filosófico-clínica.» (PACKER, 2007:78-79)
O problema da morte não está esclarecido no que à dimensão imaterial, espiritual ou de consciência respeita, restando, portanto, sem prejuízo para os não-crentes de pensarem conforme entenderem, a fé num Mundo Melhor, o tal mundo pacífico para as gerações vindouras, já que para as gerações que se aproximam do limite biológico, o fim-último vai continuar uma incógnita, um mistério que Alguém guarda para sempre.

Bibliografia

PACKTER, Lúcio. (2007). “Morrer para Renascer” in Filosofia. Ciência & Vida. São Paulo: Escala. Ano I, (6)

O Presidente da Direção da ARPCA,

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo


 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Dever e Obrigação

 

É corrente na linguagem vulgar utilizarem-se os termos “Dever” e “Obrigação”, com sentidos equivalentes, sem a preocupação de os distinguir, com rigor, e isto, precisamente, porque o conceito predominante assenta na ideia de que tais termos implicam o cumprimento de algo que é intrínseco, ou extrinsecamente, a toda a pessoa.
Na verdade e no mais profundo do seu sentido, os vocábulos são distintos porque enquanto que: a Obrigação tem um caráter de necessidade moral, que vincula o sujeito a um determinado procedimento; o Dever significa esse mesmo procedimento, isto é, aquela é o aspeto formal e subjetivo; este, o aspeto material e objetivo de uma mesma realidade da existência humana.
Na prática, a utilização indistinta dos dois termos não produz efeitos diferentes, na medida em que, dizer-se que uma pessoa “tem a obrigação de cumprir os seus Deveres” ou “que tem o Dever de cumprir as suas obrigações”, não influi no cumprimento do ato a executar, seja de natureza objetiva ou subjetiva.
Na sua práxis quotidiana o homem é um ser em liberdade, dependente dos seus Deveres, e como tal, capaz de não respeitar as suas obrigações ou de as assumir, precisamente porque possuindo a capacidade relativa de se autodeterminar, num vasto universo de comportamentos, é livre quanto às decisões que toma, e igual e proporcionalmente responsável, desde que as tome no pleno uso das suas faculdades humanas, respondendo pelos seus atos, rigorosamente no cumprimento dos seus Deveres.
O homem como ser “obrigável” que é, só o será desde que reconheça tal obrigatoriedade, como ordem hierárquica de obrigações, isto é, ninguém pode ser materialmente obrigado em relação a Deveres que não existem, ou que não convergem para um Dever Absoluto, fundamento de todos os Deveres, por conseguinte, tem de haver uma “Obrigatoriedade Ontológica” para que o homem se obrigue. Todos os Deveres ou obrigações provêm de um Dever Originário, primordial, transcendente, supremo e absoluto, e que consiste, justamente, na obrigação radical de cumprir a vontade do Criador.
A obrigação de cumprir as leis positivas integra-se no ordenamento funcional da humanidade, e a violação àquelas leis conduz à aplicação de sanções penais terrenas, por uma autoridade, à qual se obedece e na qual se reconhecem certas prerrogativas, que são limitadas, imperfeitas e finitas. Todavia, independentemente deste positivismo ou “extrinsequíssimo ético”, que numa perspectiva moral e religiosa se deve rejeitar, existe o Poder Divino, ao qual estão subordinadas todas as leis.
O homem como ser que não existe por si mesmo, mas antes “devido a Outro a quem se deve”, tem, portanto, a obrigação de responder ao “apelo que o chamou à existência” porque “tem para com Deus o Dever de viver como homem”, à imagem e semelhança do seu Criador, Este consubstanciado na família religiosa, como uma ideia de esperança e salvação. Só depois de interiorizado este Dever Absoluto é que o homem deve assumir as obrigações terrenas. 

O Presidente da Direção da ARPCA,

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo




 


domingo, 6 de janeiro de 2013

Que Soluções para um Futuro mais Pacífico?


O tema apresentado em título interrogativo pode suscitar alguma polémica, desde logo porque o futuro não é uma realidade que a ciência e a técnica possam garantir a partir de resultados objectivos, testados, repetíveis e reversíveis e, por outro lado, igualmente complexo, quando se pretende abordar as condições necessárias e suficientes para se assegurar a existência de um futuro mais pacífico, mesmo que não se considere o relativismo do termo pacífico, porque o que para uns é pacífico, para outros pode ser conflituoso, ou, no mínimo, algo polémico.
Ainda assim, correndo, embora, os riscos inerentes a quem ousa abordar um tema tão preocupantemente e atual, o contributo dos cidadãos e das instituições é importante, apesar de, uma posição mais teológica, defender que o “futuro a Deus pertence”, o homem real e profano, ter o dever de se envolver, com os recursos de que dispõe, na construção de um futuro mais pacífico, mais afectivista, mais humanista, pelo menos, para as gerações que agora estão a tomar contacto com realidades tão difíceis e desafiadoras.
E se reflectir sobre o passado é um exercício fundamental, para a partir do presente, que é efémero, se projetar o futuro, que é incerto, não menos importante é viver cada momento atual à luz das experiências e dos conhecimentos adquiridos, melhorando-os, adaptando-os e, simultaneamente, evitar os erros cometidos, o que também é um bom processo de aprendizagem.
Organizações e indivíduos, no exercício das inúmeras funções, na luta por alcançar objectivos previamente fixados, naturalmente que cometem muitos erros: uns, involuntariamente; outros, por obstinação e resistência à mudança; outros, ainda, com intencionalidade e espírito inconfessáveis. Quaisquer que sejam os erros e as circunstâncias em que foram cometidos, deve-se tirar as devidas consequências e com eles aprender exercer novas atitudes, boas-práticas, designadamente, no relacionamento humano, a todos os níveis da existência.
É provável que uma parte significativa dos conflitos, que chegam aos tribunais ou aos campos de guerra, possam ser solucionados através de acordos prévios, consensos e cedências recíprocas, desde que as pessoas estejam preparadas e disponíveis para o exercício de uma nova pedagogia (não-cognitiva) e de uma nova justiça, (não punitiva) justamente através de um relacionamento leal, responsavelmente crítico e generosamente tolerante.
Os conflitos solucionados pelos mecanismos do bom-senso, da compreensão e tolerância, materializados em acordos justos e dignificantes para as partes, não deixam sequelas tão profundas e duradouras, como aquelas que resultam da intervenção coerciva do poder judicial e/ou bélico. A resolução dos conflitos numa base igualitária do tipo “ganha/ganha”, poderá ser a pedagogia que no futuro torne o relacionamento humano mais pacífico e genuíno.
 
O Presidente da Direção da ARPCA,

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo


 
 

domingo, 30 de dezembro de 2012

Construir a Paz


Regra geral: toda a pessoa, verdadeiramente humana; as famílias; as instituições; as comunidades; as sociedades; os povos; as nações de todo o mundo perseguem objetivos, desejam alcançá-los e consolidá-los para viverem com a maior estabilidade possível, com qualidade de vida, com tranquilidade, na maior felicidade exequível, enfim, com Paz.
Na verdade, o Papa Paulo VI, em sua primeira mensagem para o dia de Ano Novo, dizia: «Dirigimo-nos a todos os homens de boa vontade, para os exortar a celebrar o Dia da Paz, em todo o mundo, no primeiro dia do ano civil, 1 de Janeiro de 1968. Desejaríamos que depois, cada ano, esta celebração se viesse a repetir, como augúrio e promessa, no início do calendário que mede e traça o caminho da vida humana no tempo que seja a Paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar o processar-se da história no futuro.» (http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_Mundial_da_Paz, consultado em 25.11.2012).
Muitos são os valores que acompanham a existência humana, ainda que as culturas, histórias, civilizações tenham, e pratiquem, os valores que consideram próprios de cada povo. Praticamente, é impossível conseguir adaptar-se valores e as respetivas boas-práticas, comuns a todas as pessoas e embora se deseje acreditar que haverá valores que toda a gente gostaria de possuir e usufruir plenamente, como por exemplo: saúde, trabalho, família, solidariedade, justiça, felicidade e Paz, o certo é que não é seguro que assim seja.
A Paz não é apenas e/ou necessariamente a ausência de guerra. Ela envolve por si só outros valores, outras práticas, de tal forma que se não existirem e não forem fruídos, então a Paz será, tão só, uma condição em que se vive, mas que não traz à pessoa humana, a tranquilidade para viver feliz, com entusiasmo, dinamismo e projetos de vida. A Paz, no conceito de ausência de guerra, é muito pouco. A Paz tem de comportar outras exigências, dimensões e realizações para que contribua para a dignidade humana.
É rigorosamente verdade que o mundo é um aglomerado de seres, de fenómenos, de mistérios. O ser humano é, porventura, no campo do que já é conhecido, o mais evoluído de todos, aquele que verdadeiramente constrói, desenvolve e desfruta de uma cultura, desde logo, na sua própria educação, formação ao longo de toda a vida, sem que alguma vez se sinta plenamente realizado, feliz, todavia, poderá encontra alguma tranquilidade, uma sensação de bem-estar, de conforto material e espiritual.
Se assim for, então, parta-se da aceitação de que a Paz deve começar em cada pessoa e depois, qual vento circulante, expandir-se para as outras pessoas, cada uma destas, igualmente se esforçando por construir a sua própria Paz, continuando a envolver sempre mais pessoas, povos e nações. Resulta que a grande estratégia será a soma das Pazes individuais para se erigir a Paz mundial, porque é necessário o contributo de todos, em liberdade e com responsabilidade.
Com efeito: «A Paz é a prática da consciência plena, a prática de estar ciente dos nossos próprios pensamentos, das nossas ações e das consequências das nossas ações. A consciência plena é simultaneamente simples e profunda. Quando somos plenamente conscientes e cultivamos a compaixão da nossa vida diária, diminuímos a violência a cada dia que passa. Temos um efeito positivo na nossa família, nos amigos e na sociedade» (HANH, 2003:11).
Este valor inestimável, procurado pela esmagadora maioria das pessoas, povos e nações, encontra sempre imensos obstáculos, porque a Paz tem de começar a existir no espírito de cada indivíduo, é ele que tudo deve fazer para “contaminar” os outros, qual bola de neve.
Enquanto não forem erradicados objetivos individuais de puro egoísmo, do poder-pelo-poder, de domínio arrogante, prepotente, ditatorial e desumano; enquanto predominar o ter sobre o ser; a perseguição sobre a reconciliação; a vingança sobre o perdão; a hipocrisia sobre a lealdade; a ambiguidade sobre a solidariedade, a Paz é, praticamente, uma utopia.
Claro que toda a utopia, mais tarde ou mais cedo, ao longo da história da humanidade, pode-se tornar realidade, tudo dependendo da determinação de cada pessoa em “lutar” pela sua própria Paz e ajudar os seus semelhantes a conquistar e praticar este supremo bem.
É fundamental que se tenha a coragem e também a humildade de se autoavaliar, reconhecer que se errou e corrigir tudo o que intencionalmente, ou não, foi realizado para prejudicar outras pessoas, para humilhar, desconsiderar, magoar e desgostar. Enquanto esta situação perdurar em cada pessoa, ela não terá Paz consigo própria, logo, não está em condições de contribuir para uma verdadeira Paz alargada a toda a gente.
Portanto, é condição “sine qua non” que se comece por avaliar o grau de culpabilidade na ausência da Paz individual porque: «A verdadeira culpa é o remorso que sentimos quando magoamos aqueles que amamos; ela nos faz ter vontade de corrigir as coisas no nosso relacionamento com os outros. A falsa culpa é o medo da punção que está mais ligada à necessidade de nos protegermos depois que fazemos algo errado. A falsa culpa raramente beneficia o nosso relacionamento com os outros. Na verdade, ela em geral nos prejudica e nos torna pessoas de convivência mais difícil.» (BAKER, 2005:79).
Comemora-se mais uma efeméride relativa ao “Dia Mundial da Paz”, no início de cada ano, mais concretamente, no dia 01 de Janeiro, dia de Ano Novo. Os apelos à Paz vêm de todos os quadrantes: religiosos, políticos, económicos, empresariais. Considera-se, então, naquele dia, a Paz como um desígnio universal a alcançar e consolidar.
As promessas de tudo se fazer, a partir das mais altas instâncias, nacionais e internacionais, são uma atitude que se deve aplaudir e, com mais veemência, quando depois se concretizam no terreno. Mas a Paz que se deseja para todos, será que existe em cada pessoa anónima e nas que fazem os apelos mais lancinantes, para que ela se concretize?
A realidade é bem diferente porque: «Todos nós sonhamos com uma vida melhor, uma sociedade melhor. Contudo, tornou-se difícil passar um dia que seja sem nos desiludirmos, sem nos sentirmos desapontados, sem nos sentirmos sugados pelas pessoas mesquinhas e egoístas que nos rodeiam. Parece que uma grande maioria das pessoas só está interessada nos seus ganhos pessoais. Tornaram-se rudes e arrogantes, críticas e insensíveis. As suas acções não só nos deprimem, como também nos fazem sentir que não podemos fazer nada para mudar este estado de coisas e que apenas os que estão no poder têm capacidade de fazer a diferença.» (BRIAN, 2000:138).
Seguramente que a Paz é um bem supremo, um valor, um desígnio, enfim, eventualmente, o bem último a que o ser humano aspira e que persegue, incessantemente, até nas expressões mais simples como: “Deixem-me em Paz” se confirma este desejo universal. Mas a Paz é um objetivo difícil de alcançar, não necessariamente porque o ser humano não tenha inteligência e meios para dela se aproximar, mas porque os conflitos internos em cada pessoa estão sempre latentes.
Evidentemente que nenhuma das posições individuais – pessimismo – otimismo – quando exageradas poderá conduzir, com segurança, à Paz mas, provavelmente, um otimismo moderado, realista, racional e também com um pouco de sentimento e emoção, ajuda imenso, pelo menos a acreditar, a ter fé na possibilidade da Paz, com todos os outros valores e oportunidades que ela proporciona no mundo.
A Paz interior, sempre em construção, sempre a melhorar, sempre a dar mais felicidade a quem por ela “luta”, será o rumo a seguir, objetivo a alcançar. Para o efeito aponta-se, de facto, uma atitude otimista, realista, com esperança, com determinação, com capacidade de adaptação, com serenidade e com sentido da realização do potencial de transformação.
Seguramente, não um otimismo santificado, ingénuo e “cor-de-rosa”, porque este pode levar ao desespero, na medida em que o mundo, indiscutivelmente, não é fácil, nem imutável e, muito menos, girando à volta de cada pessoa, de cada interesse. O mundo tem “esquinas muito pontiagudas”, “espinhos venenosos”, e “alçapões sem fundo”, por isso é importante ter-se em atenção esta e outras realidades.
A estratégia para a Paz passa, portanto, pelo otimismo racional, realista, com emoção, sentimento e entusiasmo e, nesse sentido: «Não nos detenhamos na imagem Épinal (Épinal é uma cidade situada no nordeste da França, capital do departamento de Vosges, na região Lorena. A cidade é atravessada pelo rio Mosela. Épinal é a cidade de nascimento de Émile Durkheim e de Marcel Mauss) do otimismo beato. Por trás desse cliché de que gostamos de troçar esconde-se um grande número de qualidades: a esperança, a determinação, a faculdade de adaptação, a lucidez, a serenidade e a força de caráter, o pragmatismo, a coragem e até a audácia, outras tantas qualidades que se encontra no soukha, a verdadeira felicidade». (RICARD, 2003:180).
Está identificado, a partir da determinação pessoa, o rumo a seguir para se chegar ao bom porto da Paz. Um rumo que será estimulante de se seguir, desde já com a força da solidariedade entre todas as pessoas de boa-vontade, porque, afinal, a solidariedade dever ser: «Entendida como sentimento de fraternidade, de adesão, de felicidade e de compreensão que nos impele a cuidar, apoiar e animar mutuamente, é uma força natural que incute confiança, segurança, esperança e fomenta uma perspectiva mais comunitária do mundo menos individualista.» (MARCOS, 2011-122). Sim, a Paz é possível, assim a queiramos todos unidos. Mãos à obra e Paz para todos.

Bibliografia

BAKER, Mark W., (2005). Jesus o Maior Psicólogo que já Existiu.Trad. Cláudia Gerpe Duarte. Rio de Janeiro: Sextante.
BRIAN L. Weiss, M.D. (2000). A Divina Sabedoria dos Mestres. Um Guia para a Felicidade, alegria e Paz Interior. Trad. António Reca de Sousa. Cascais: Pergaminho.
HANH, Thich Nhat, (2004). Criar a Verdadeira Paz. Cascais : Pergaminho
MARCOS, Luís Rojas, (2011). Superar a Adversidade, O Poder da Resiliência. Trad. Maria Mateus. Lisboa: Grupo Planeta.
RICARD, Matthieu, (2005). Em Defesa da Felicidade. Trad. Ana Moura. Cascais: Editora Pergaminho, Ldª.

O Presidente da Direção da ARPCA,

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo