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domingo, 6 de julho de 2014

Esperança na Colaboração de Jovens e Adultos

 
A capacidade do ser humano para o bem e para o mal é inesgotável. Atualmente atravessam-se tempos extremamente difíceis. As incertezas são muitas. As soluções defendidas pelas diversas teorias não param de se desenvolver e, entretanto, vai-se caminhando para um certo abismo económico-social. Esta secunda década do novo século notabiliza-se por uma crescente desigualdade entre as pessoas.
Próximos do meio da secunda década do século XXI, governantes e políticos discutem as suas teses, chegando-se ao limite do absurdo que consiste em retirar direitos adquiridos, alguns dos quais conseguidos em regimes ditatoriais. Parece um pesadelo, mas de facto e infelizmente é a realidade que bate à porte de todos, mas que faz sofrer de forma atroz os mais carenciados. O ano de 2013 já ficou na história como sendo aquele em que os pobres ficaram paupérrimos e os ricos continuam com o melhor que a vida sempre lhes proporcionou.
Ao longo dos ciclos governativos, a alternância do poder, num regime democrático, é uma característica que cria novas expectativas, na medida em que várias e aliciantes são as promessas feitas por aqueles que pretendem chegar ao Poder.
Será uma situação para se concordar, ou não, segundo a qual: «(…) não tome nada por adquirido e não acredite em tudo o que lhe dizem. (…). Reconheça a impermanência, o sofrimento e a ausência de ego ao nível do quotidiano e seja inquisitivo a respeito das suas reacções. Descubra por si mesmo a paz e se é ou não verdade que a nossa situação fundamental é alegre.» (CHODROM, 2007:87).
A vida difícil que está a atingir a classe mais desfavorecida não permite, de facto, acreditar naqueles que criaram expectativas, que venderam ilusões e que agora são os primeiros a levantar a espada da injustiça.
É claro que não se pode atribuir, em absoluto, culpas a um só e determinado sistema governativo e muito menos a uma pessoa. É toda uma conjuntura mundial que afecta as populações, mas também é verdade que tal conjuntura se poderá ficar a dever a grandes grupos económico-financeiros, através da agiotagem e da especulação.
É verdade que se derrubam regimes ditatoriais, porque não cumprem, minimamente, os direitos humanos, fazem-se opções a favor ou contra determinadas situações políticas, grupos pacifistas e terroristas. Tomam-se medidas para combater a transacção de determinados produtos como a droga, armas, etc.
Há que fazer muito mais, no sentido de identificar e punir todos aqueles que criam crises mundiais, que, fraudulentamente, enviam para o desemprego milhões de trabalhadores em todo o mundo. Esta é uma verdadeira guerra que rapidamente urge ganhar sob pena de uma explosão social.
Compreender as razões que levaram pessoas e grupos a determinadas atitudes, por vezes é difícil se, como se sabe, a existência humana é muito curta, não chega, sequer, para se desfrutar de tudo o que se acumulou, com a agravante de que os potenciais herdeiros, poderão não valorizar, verdadeiramente, o que foi angariado e, pior ainda, quando tais impérios patrimoniais foram adquiridos por vias ilegais, ilegítimas e injustas, à conta da exploração das pessoas. São absurdos e como tal não têm explicação compatível com a dignidade humana.
O mundo, aqui representado na sua população, não é igual para todos porque, infelizmente, a capacidade do ser humano tem-se orientado para o mal, designadamente nas suas dimensões sociais e culturais, sim, porque também se trata de uma cultura de apoio aos mais desfavorecidos, de uma cultura de redistribuição das riquezas naturais e produzidas, de uma cultura de solidariedade.
A cultura que envolve valores sociais não está verdadeiramente nítida nos Estados e nos Governos. Fala-se, apenas, em Estado Social mas é, justamente, nos benefícios sociais que mais se corta quando é preciso reduzir despesas. Não existe, nitidamente, uma preocupação social, precisamente, porque é uma classe sem força, aquela que mais precisa de tais benefícios. São os mais fracos a suportarem as injustiças.
Apesar de tantas e tão difíceis situações que atormentam a humanidade, sempre haverá uma janela, ainda que entre-aberta, para a esperança, em melhores tempos, porque é necessário acreditar na capacidade de resolução, na boa-vontade e determinação dos governantes, das novas gerações para, humildemente, assumirem os erros atuais e resolverem as situações sociais mais deprimentes.
Acredita-se nas potencialidades dos jovens e também não se descura algum receio na tomada de certas decisões. Dir-se-ia que esperança e receio podem andar de mãos dadas, porque o futuro é sempre incerto em quaisquer circunstâncias.
Na verdade: «A raça humana é extremamente previsível. Um pequeno pensamento surge, entra numa escalada e, sem que tenhamos a noção do que nos atingiu, vemo-nos apanhados pela esperança e pelo medo.» (Ibid.::70).
A situação mundial já era no final da primeira década (2010) deste novo século) muito complexa, repleta de incertezas, de medos quanto ao futuro: como vai evoluir o emprego/desemprego? Como vão sobreviver os reformados com pensões exíguas? Haverá dinheiro para, não só aumentar, como também pagar tais pensões? E a saúde, com a necessária assistência médica e medicamentosa, que caminho irá tomar? A educação e formação profissional manter-se-ão com objetivos de melhorar a escolaridade e o profissionalismo da população? Enfim, é todo um conjunto de questões que atormentam os cidadãos, que se preocupam com o futuro.
Ao ser humano, enquanto pessoa de direitos e deveres, não se lhe pode exigir, quase permanentemente, que cumpra deveres, principalmente fiscais, não se lhe oferecendo nada em troca, nem sequer a garantia de um futuro tranquilo, uma qualidade de vida que lhe é devida, depois de um longo período de contribuições, porque é no fim da linha da vida que mais precisa de apoio em todos os aspetos.
Começou-se a verificar que, incompreensivelmente, estava a acontecer o contrário em 2010-2011 e, comprova-se agora, que a situação para as maiorias mais carenciadas, em nada melhorou. Os governantes devem ter uma consciência social, mais do que uma preocupação com um qualquer deficite orçamental, com metas, com mercados. As pessoas não são números e estão primeiro.
As crises não se vencem contra as pessoas, muito menos contra aqueles que se encontram mais vulneráveis, em situações-limite, de quase sobrevivência vegetativa. As crises vencem-se com a solidariedade de quem tem poderes decisórios, meios e vontade de ajudar. As crises vencem-se com austeridade, sobriedade e responsabilidade social, abdicando de privilégios que a esmagadora maioria da população não tem. Por isso se acredita nos jovens, na sua generosidade e na ausência de vícios egoístas e materialistas.
Importa, nesta reflexão, destacar-se a esperança que as novas gerações podem trazer à resolução dos problemas que atingem o mundo. Com efeito, a fatura que eles têm de pagar, por culpa dos erros cometidos pelos seus antepassados, será suficiente para não prosseguirem idênticas práticas. Além da sua própria formação que, indiscutivelmente, será bem melhor, desde logo em vários domínios culturais, técnicos, científicos, axiológicos e profissionais.
A participação dos jovens, integrados em equipas de colegas maduros e experientes, todos dotados de valores essenciais à dignidade humana, pode ser a chave para o sucesso na resolução das crises que, periodicamente, atingem populações inteiras. Não se deve recear a inovação dos jovens como estes não devem depreciar a sabedoria dos mais velhos. É necessário escolher os melhores, aqueles que, de facto, se preocupam com o bem-comum.
Certamente que os mais velhos têm sempre uma palavra neste processo de saída das crises como devem ter no relacionamento com os mais jovens. Na verdade: «O ser social tradicional respeita naturalmente os mais velhos e aspira a conformar-se com as maneiras de ser e de agir transmitidas pelas gerações. Não se esforça de modo algum por ser singular. Tem a impressão de fazer parte de um corpo social do qual não poderá afastar-se sem perder a razão de ser. A noção de pessoa, tal como a entendemos hoje em dia, não faz parte do seu universo.» (ANGERS, 2003:68).
Cabe, portanto, aos jovens esta humildade de saber escutar os mais velhos e estes têm a obrigação de compreenderem as dificuldades daqueles, sem se imporem com sabedorias, experiências e maturidades que, nem sempre, correspondem à verdade. Humildade de ambas as partes é a chave do sucesso.
 
Bibliografia
 
ANGERS, Maurice, (2003). A Sociologia e o Conhecimento de Si. Uma outra maneira de nos conhecermos graças à Sociologia. Trad. Maria Carvalho.
CHODRON, Pema, (2007). Quando Tudo se Desfaz. Palavras de coragem para tempos difíceis. Trad. Maria Augusta Júdice. Porto: ASA editores.
O Presidente da Direção,
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
                                                                                                     http://sites.google.com/site/arpcaminha

domingo, 1 de junho de 2014

O Poder Ético da Fé


Existem razões suficientes para: apesar dos conflitos regionais e locais; das dificuldades em diversos domínios da vida humana; dos problemas na saúde, no trabalho, nas famílias; preconceitos, egoísmos, radicalismos, fundamentalismos, e outras situações incómodas, se acreditar num mundo mais equilibrado, numa sociedade global mais humanizada e fraterna, principalmente para a grande maioria dos que têm Fé, daqueles que acreditam numa Justiça Divina, obviamente mais sábia, mais compreensiva, mais tolerante, porque perfeita, comparativamente com os sistemas judiciais do homem imperfeito e finito.
O êxito para a humanidade atingir patamares de bem-estar, neste se incluindo condições materiais de vida, mas também convicções verificáveis de serenidade de espírito e Fé, numa vida transcendente e redentora, terá de passar por uma conduta individual e coletiva, compaginável com o respeito pelos direitos e deveres que cabem aos cidadãos em concreto e aos espíritos prudentes, benevolentes e tranquilos que em cada indivíduo devem existir.
Exige-se competência na conduta que a pessoa deve assumir perante a vida e a sociedade. Conduta como sendo a: «Maneira de agir, atuar, comportar-se em observância a princípios, valores, orientações e regras. Este fator possui uma característica interessante: é o único que todas as pessoas podem possuir em igualdade de condições, independentemente de posição ou formação, pois é fruto apenas da vontade.” (RESENDE, 2000:45).
A pessoa de Fé manifesta uma conduta perfeitamente assumida, declarada, exibida perante os demais seus iguais, e será este seu comportamento que lhe garante um Poder legítimo, transcendente e que ninguém lho pode usurpar. A sua conduta ética no exercício da sua Fé ilimitada, garantem-lhe um poder que, sem violência, sem armas, sem fundamentalismos, se impõe e, de certa forma, subjuga todos aqueles que, no limite e na dúvida, preferem manter-se, aparentemente, indiferentes, não hostilizando os detentores deste poder ético da Fé.
A praxis permanente, coerente e singularmente assumida pelos crentes, no respeito por aqueles que professam outras ideologias religiosas, aceitando com tolerância e compreensão os atos litúrgicos que lhes são próprios, credibilizam a pessoa de Fé e reforçam o seu poder espiritual. A consciência ética da pessoa de Fé permite-lhe tomar decisões adequadas, face às situações que se lhe colocam ao longo da vida, porque para ela: «A busca religiosa de valores principia com a aceitação de Deus como padrão de todas as decisões.» (FORELL, 1980:77).
Os modelos sócio-económicos que ao longo dos séculos têm vigorado em diferentes pontos do mundo, em contextos culturais diversos e com resultados divergentes, na maior parte dos casos estão próximo do esgotamento, dificultando a adoção de novos processos, outras soluções, porque persistem interesses e objetivos inconfessáveis em muitos dirigentes políticos, um pouco por todo o universo.
Continua-se a investir no conflito para ganhar poder estratégico, bélico e hegemónico, destruindo, mutilando e matando homens, mulheres, crianças e idosos inocentes, civis e militares. Muitos dos poderes que os responsáveis pelos diferentes sistemas políticos têm utilizado já se revelaram ineficazes, ou mesmo prejudiciais, por isso cumpre mudar, impõe-se novas políticas, novos processos, condutas compatíveis com a superior condição da dignidade da pessoa humana.
As filosofias e políticas individualistas, nacionalistas e unilateralistas não conduzem a objetivos verdadeiramente humanos, no contexto de uma sociedade moderna, democrática, tolerante e solidária. A delapidação de recursos materiais nos investimentos bélicos tem-se revelado desastrosa, na medida em que os principais problemas do mundo não são resolvidos, pelo contrário, alguns se têm agravado: doença, fome, desemprego e guerras.
O egocentrismo que carateriza pessoas e regimes constitui um sentimento cuja conduta produz mais desigualdade e injustiça. Facilmente se comprova que as políticas sociais, económicas e culturais implementadas até ao presente estão esgotadas na maioria dos países.
O homem só conseguirá reabilitar-se e recuperar a sua dignidade quando se assumir, na prática, em suas dimensões essenciais: enquanto ser único e individual, cooperando com o outro seu igual, com o mundo e com Deus, o que se aplica às organizações, às nações, aos continentes, porque: «O homem só e auto-suficiente é impensável. Se ele quiser realizar-se deve abrir-se livre e totalmente para Deus que, em seu amor, não se contenta apenas em dar-lhe o ser, mas deseja unir-se a ele e transformá-lo em si. O homem não está só, está ligado a todos os outros homens e deve livremente unir-se a eles pelo amor.» (QUOIST, 1985:23).
O imperativo categórico, o verdadeiro desígnio universal, fundam-se, portanto, numa conduta ética, para com os homens, para com o mundo, para com Deus. O Poder Ético da Fé, mas também de quaisquer atividades humanas, poderá ser a chave para a elaboração de soluções de problemas que atormentam e envergonham a humanidade.
Aquele Poder está acessível a cada pessoa individualmente considerada, desde que o queira utilizar em todas as suas tarefas e em quaisquer situações porque: «A conduta ética tem a ver com respeito próprio. Sabemos que as pessoas que se sentem bem consigo mesmas possuem o que é necessário para resistir a pressões externas e para fazer o que é certo, e não o que é meramente conveniente, popular ou lucrativo.» (BLANCHARD & PEALE, 1988:10).
A conduta ética, revela-se, assim, um poderoso instrumento para solucionar muitos problemas, alterar situações, melhorar condições de vida pessoais e coletivas, iniciar um novo e profícuo processo para uma sociedade mais fraterna, para que cada um alcance, eticamente, o sucesso a que tem direito, porque não ofende a Deus, nem ao mundo, nem ao outro seu igual, lutar: legítima, legal e eticamente, por uma vida melhor, individual ou coletiva.
Para se alcançar tais objetivos, pode-se iniciar o projecto recorrendo aos cinco princípios fundamentais da tomada de decisões éticas: «Propósito, Pundonor; Paciência; Persistência e Perspectiva. (…) Os cinco princípios básicos na conduta ética são também ingredientes de uma realização autêntica e duradoura na vida.» (Ibid.:44).

Bibliografia

BLANCHARD Kenneth & PEALE, Norman Vincent, (1988). O Poder da Administração Ética, Trad. Ruy Jungmann, Rio de Janeiro: Editora Record.
FORELL, George W., (1980). Ética da Decisão, Introdução ao Estudo da Ética Cristã, Trad. Walter Muller, 2ª Ed. São Leopoldo/RS: Editora Sinodal.
QUOIST, Michel, (1985). Construir o Homem e o Mundo, Trad. Rose Marie Muraro, 34ª. Ed. (332º milheiro), São Paulo: Livraria Duas Cidades.
RESENDE, Enio, (2000). O Livro das Competências. Desenvolvimento das Competências: A melhor Auto-Ajuda para Pessoas, Organizações e Sociedade. Rio de Janeiro: Qualitymark

O Presidente da Direção,
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
925 935 946
 
 

 

 

 

 

domingo, 4 de maio de 2014

Mãe: Uma Dádiva Divina


Todos os dias do ano, das nossas vidas e da história, serão sempre muito poucos para enaltecer e homenagear as múltiplas e profundas dimensões da mulher porque, paulatinamente, com o decorrer dos séculos, a sua influência benéfica tem vindo a fazer-se sentir, bem como o desejo para que ela se posicione no lugar, a que por mérito próprio, tem direito no seio da sociedade, é cada vez mais evidenciado, principalmente por todos aqueles que, sem preconceitos, com toda a humildade e gratidão, reconhecem a insubstituabilidade daquele ser humano maravilhoso.
A Mulher vem assumindo, com espírito de tolerância, também de firmeza, a posição merecida de, em todos os domínios, estar ao lado do Homem, partilhando valores, sentimentos, emoções e funções profissionais, numa sociedade muito exigente, extremamente competitiva, todavia ainda muito dominada por um certo setor masculino que, receando perder prerrogativas, continua, de forma muito sub-reptícia, algo velada e envergonhada, a conceber normas jurídico-legais, para controlar os sistemas: político, religioso, empresarial e ainda familiar, em muitos lares, para evitar a justa ascensão da Mulher.
Entre as muitas e sublimes dimensões que a Mulher assume na sociedade, provavelmente a sua condição de Mãe (quando realmente o deseja e consegue) será, porventura, o seu, ou pelo menos, um dos seus expoentes máximos, porque para além das inúmeras tarefas, difíceis e, quantas vezes, incompreendidas, que quase sempre tem de desempenhar, ela é a única pessoa a poder atingir tão grande felicidade: gerar e dar à luz um filho, com sofrimento, alegria e amor, mas também como resultado da sua entrega generosa a um homem que igualmente ama (ou já amou). Impossível igualar uma relação tão profunda.
Ser Mãe em toda a sua plenitude de Mulher, verdadeiramente humana, em todo o seu esplendor, é uma condição que algum outro ser poderá igualar ou substituir porque, em bora verdade, não só a constituição biológica como a sensibilidade sentimental, são caraterísticas que existem genuinamente na Mulher e, além disso, ela comporta uma intuição muito apurada para a proteção do/s seu/s filho/s, tornando-se pouco credível que ela possa ser substituída a partir da conceção e aplicação de leis.
Importa refletir: positivamente, sobre a importância, que em nossos dias, significa ter Mãe; interessa meditar, profundamente, no contributo que a Mulher-Mãe dá à humanidade, no sentido da criação, educação e formação que ela proporciona aos sues filhos, em vista da necessidade de uma sociedade equilibrada: em princípios, valores, sentimentos, emoções e desenvolvimento harmonioso da pessoa humana.
Mas também é necessário que se valorize, se proteja e se concedam às Mulheres condições para que elas possam exercer o seu papel maior, que é ser Mãe porque, afinal, a Mãe é, por um conjunto de qualidades, capacidades, virtudes, valores e sentimentos, o centro da família, a moderadora, a protetora, a administradora, a educadora, a apaziguadora, a única que, paciente e generosamente, sabe escutar, harmonizar posições dos restantes elementos da família, encobrir quando é necessário amparar.
A família, sendo a base e a principal célula da sociedade, será tanto mais responsável por um mundo justo, quanto melhor for a preparação dos seus elementos constituintes, sendo certo que a figura maternal, quando verdadeira e humanamente existe, é decisiva para a interiorização, realização e consolidação de valores e boas práticas comunitárias, precisamente a partir da intervenção sensata e amorosa da Mãe.
O poder matriarcal, no seio da família, será um fator de estabilidade, uma garantia de compreensão e tolerância, perante situações anormais provocadas, ou não, por algum elemento do agregado familiar, será fonte de amor, de carinho e de aconchego, finalmente, significará o poder moderador, conciliador e solucionador de conflitos. O poder da Mãe impõe-se pelas suas virtudes, valores e sentimentos naturais, não é conquistado pela força, nem pelo divisionismo da família, e muito menos pela intervenção e intromissão de elementos estranhos.
Conhece-se bem o papel da Mãe na criação, educação e preparação para a vida dos seus filhos, pelos quais tudo faz, até ao limite dos maiores sacrifícios. A credibilidade da Mãe e o reconhecimento da sua necessidade formal e prática são de tal maneira visíveis e aceites que, em grande parte das separações matrimoniais, quando há filhos, estes são entregues à guarda da Mãe, naturalmente, com algumas exceções bem fundamentadas.
Igualmente se julga saber que o abandono dos filhos, por parte do pai, é muito maior do que pela Mãe, como também parece um dado adquirido que, na maior parte das situações, são os avós maternos que apoiam a mãe na criação e educação dos filhos, podendo-se inferir que, em regra, os pais, aqui reportados aos homens, são menos responsáveis do que as mães, em muitas situações, designadamente: por imaturidade, por egocentrismo, por não serem capazes de abdicar de certos vícios e formas de vida.
É indiscutível que há muitas e boas exceções, como também é verdade que existem mães que se revelam incapazes para cuidar dos seus filhos, nalguns casos, porém, sem terem qualquer culpa, porque são surpreendidas por homens e/ou jovens sem quaisquer princípios, valores e sentimentos humanos.
O exercício das funções de Mãe, quando assumido em todas as suas dimensões, enfrentando diferentes e complexas dificuldades, revela bem a grandeza desta condição sublime da Mulher-Mãe, eminentemente feminina, e que por tudo isto deveria ser mais respeitada, mais protegida, mais reconhecida nos seus direitos, enquanto Mulher, Cidadã e Trabalhadora.
Não é nada fácil ser Mãe, ainda que a análise parta de um homem, na medida em que ao longo da história da humanidade, a Mãe tem arcado com as maiores responsabilidades na família e na sociedade porque: em primeira instância, é ela que prepara homens e mulheres para o mundo; é ela que ensina as primeiras palavras, as boas-maneiras, os bons hábitos.
Quem não se sente honrado, feliz e abençoado por ter a Mãe presente, sempre do seu lado, nas alegrias e nas tristezas, nos sucessos e nos fracassos, na saúde e na doença? Quantas pessoas em geral, e quantos filhos, em particular, suspiram pela sua Mãe, ou porque ela faleceu, ou porque teve de abandonar o lar, por razões que nem sempre serão da sua exclusiva responsabilidade? A Mãe, em toda a sua plenitude, é indispensável.
Quantas vezes ao longo da vida recorremos à nossa Mãe: para nos ajudar, material e/ou espiritualmente; quantas vezes ela nos negou a sua ajuda? Quantas vezes nós nos interrogamos, profundamente ansiosos: Mãe, onde estás? Ajuda-me! Não me abandones, Mãe!
É muito difícil refletir-se e escrever-se sobre a Mãe, em geral; e sobre a nossa Mãe, em particular, sem que os sentimentos de amor, de saudade ou até de arrependimento, pelo que de errado tenhamos feito, contra a nossa Mãe, nos chamem à razão, nos alertem para a riqueza que temos, ou perdemos, ou ainda que maltratamos.
De facto, ter Mãe é a maior riqueza que se pode obter neste mundo, e quando a nossa Mãe se nos revela com todo o seu amor, sem limites, nem julgamentos e condenações prévios, nem exigências de nenhuma natureza e que, simultaneamente, nos defende, nos elogia, nos projeta para a vida e para a sociedade, então consideremo-nos as pessoas mais felizes e mais ricas do mundo, porque é impossível uma felicidade maior do que termos a nossa Mãe.
Reconhecendo-se como insubstituível as funções de Mãe, numa sociedade civilizada, defensora e praticante dos mais elementares valores do amor, da dignidade e da felicidade, é tempo de se engrandecer a Mulher, nesta sua dimensão ímpar, concedendo-lhe as condições necessárias para que ela tenha um papel mais ativo e decisivo na formação das mulheres e dos homens que, num futuro próximo, nos vão governar, porque cada vez mais se faz sentir a necessidade de uma sociedade mais humana, mas justa e fraterna.
As Mães de todo o mundo transportam nos seus ventres e lançam para a luz do dia crianças que carecem, não só enquanto tais, mas durante toda a vida, dos valores e sentimentos que suas mães lhes podem e, certamente, transmitem. Nota-se muito bem uma criança que está sob a proteção e amor de sua mãe, daquela que não tem ou nunca teve essa bênção divina.
Como é triste ouvir os choros lancinantes de uma criança, ou até de um adulto, a chamar pela sua Mãe, a pedir-lhe socorro, a pedir-lhe comida, agasalho, proteção e amor. Como estas situações penetram bem fundo na consciência de quem sabe o que é ter uma Mãe, o sorriso carinhoso da Mulher que primeiro se ama na vida, a doçura de um beijinho, a suavidade de uma carícia terna e meiga e, também de uma “palmadinha” para nos chamar a atenção das nossas traquinices.
Como é bom ter a Mãe do nosso lado, sem condições, nem exigências, e sempre junto de nós, qual baluarte de defesa das nossas fragilidades! Com é imenso o amor de Mãe que pelos seus filhos é capaz de vencer tudo e todos. Como é essencial o acompanhamento de uma Mãe, ao longo das nossas vidas. Como o mundo seria melhor se nós ouvíssemos os sábios conselhos das nossas mães, os valores e sentimentos que elas nos transmitem.
E como será bom para uma Mãe receber dos seus filhos o respeito, a admiração, o amor incondicional. E, quando necessário, tal Mãe poder contar com o filho, igualmente, do seu lado e com ele resolver os problemas da vida. Como será gratificante para uma Mãe saber que o seu filho lhe proporcionará as melhores condições de vida, que a visitará frequentemente, ou que a terá junto de si, se a vida lhe permitir porque, em quaisquer situações, a Mãe saberá sempre compreender o filho e enquanto puder, mesmo na velhice, mesmo privando-se de bens essenciais à sua vida e saúde ela, essa Mãe extremosa e amorosa, continuará a velar pela felicidade do seu filho e, quantas vezes, dos netos.
Seria muito significativo e revelaria boa formação e sentimentos nobres, toda aquela pessoa que, sendo detentora de um qualquer poder, especialmente os líderes: políticos, legislativos e executivos, bem como de todas as atividades, se adotassem medidas justas, humanas e adequadas à proteção das famílias em geral, e das Mães em particular.
 Afinal foram, continuam a ser elas, as nossas Mães, que nos ajudaram a chegar até onde estamos, a elas devemos muito dos nossos sucessos, do nosso conforto e felicidade. Sem as nossas Mães do nosso lado, sem o seu amor, carinho, tolerância e auxílio, provavelmente, não passaríamos de vulgares criaturas, sem valores, sentimentos e, eventualmente, sem rumo na vida.
Por tudo isto, e não é nada pouco, governantes, que também são filhos, protegei as vossas Mães, as nossas Mães, defendei as Mães de todo o mundo, porque sem elas, seríamos incompletos. Amemos as nossas Mães, respeitemo-las através do Amor, da Doação, da Ética, da Gratidão, da Lealdade e da Honestidade. É o mínimo dos mínimos que por elas podemos fazer.
Mãe Querida, onde quer que estejas, um beijo, com imenso amor, do teu filho. 

O Presidente da Direção,
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
925 935 946

domingo, 20 de abril de 2014

A Cruz da Austeridade na Páscoa Portuguesa


Muito embora a esperança seja, ou deva ser, a última expectativa a morrer, a verdade, porém, é que nesta Páscoa de dois mil e catorze, não haverá muitos motivos para nos sentirmos seguros quanto a uma desejável e legítima estabilidade, em vários domínios da nossa existência e, enquanto cidadãos de deveres e direito, porque, “tragicamente”, quase todos os dias somos “aterrorizados” com notícias devastadoras de esperanças que ainda poderíamos alimentar, quanto a um futuro tranquilo e confortável.
A sociedade portuguesa em geral, e alguns extratos mais vulneráveis, em particular, continuam a sofrer as consequências de situações para as quais não contribuíram, nem são responsáveis. Milhões de pessoas entre funcionários públicos, trabalhadores do setor privado, reformados, pensionistas, desempregados, imigrantes, sem-abrigo, excluídos, idosos vivem no limiar da pobreza, passando fome e frio, com falta de saúde e de perspectivas quanto a um futuro com um mínimo de dignidade humana.
Recentemente, o mais alto Magistrado da Nação, teve a coragem de, em cerimónia pública, na localidade de Azeitão, no passado dia dezassete de Abril deste ano, afirmar que “os sacrifícios exigidos aos portugueses foram excessivos, que existem situações de miséria intoleráveis e que é tempo de parar com tais medidas, que têm sido suportadas sempre pelos mesmos”. Declarou, ainda, que “existem indicadores económicos que apontam para que se pare com tantos sacrifícios”. 
Comemora-se um acontecimento de grande significado para o mundo Católico, mas não só. A Páscoa, que deveria ser um evento de alegria, de ressurreição dos valores que têm vindo a ser ignorados, como: o respeito pelos mais idosos, o trabalho para os desempregados, as reformas/pensões para os que já contribuíram e atingiram a idade para este direito, a inclusão total na sociedade, de todos os marginalizados, enfim, a dignidade de toda a pessoa humana, infelizmente é, para a esmagadora maioria dos portugueses, uma época festiva, talvez e só a nível religioso.
Verifica-se, atualmente, que os valores materiais se têm vindo a sobrepor aos de ordem imaterial, aos sentimentos mais nobres. Tudo gira à volta dos mercados, dos lucros, dos deficits, dos números astronómicos da ganância de alguns contra as mais elementares necessidades das maiorias. Hoje, sentimentos como: a solidariedade, a amizade, o amor, por exemplo, são muito difíceis de se vislumbrarem em algumas elites dominadoras, no entanto, elas, as elites, não podem ignorar que: «O amor é uma energia, a energia mais pura e mais elevada. Nas suas vibrações mais altas, o amor possui sabedoria e consciência. É a energia que une todos os seres. O amor é absoluto e não tem fim.» (BRIAN, 2000:17).
Durante alguns anos, praticamente: têm sido sempre os mesmos a suportar o “fardo” de uma dívida que não contraíram; têm sido sempre os mesmos a serem privados dos direitos que, por contrato escrito, de boa-fé, celebraram com um Estado que deveria ser, sempre, pessoa de bem. É injusto, imoral e, em muitas circunstâncias de duvidosa legalidade, o que se tem vindo a impor a alguns extratos da sociedade portuguesa, precisamente por quem se comprometeu a melhorar as condições de vida da população.
Apesar da situação difícil: há muita vontade em se acreditar em melhores dias; alguma esperança, calada bem no fundo das nossas consciências, ainda não morreu; um certo e tímido otimismo reina nos espíritos daqueles que continuam a sofrer e a lutar por um futuro melhor, mas para que estes sinais não morram é necessário que se anulem, de imediato, aquelas medidas gravosas que têm prejudicado a qualidade de vida de milhões de portugueses.
Mais um período Pascal se está a viver, com milhões de portugueses “crucificados” por: impostos, taxas, sobretaxas, comparticipações extraordinárias, desemprego, fome, exclusão. Idosos que se “arrastam” sem terem a certeza de quanto vão receber de reforma e/ou pensão no mês seguinte; centenas de milhares de cidadãos que procuram, desesperadamente, um trabalho; excluídos que continuam a dormir na rua, com fome, sede, frio e doentes; jovens que abandonam a família, os amigos, o país em busca, no estrangeiro, de uma vida de trabalho e de dignidade a que têm direito, mas que o país lhes recusa; e também, milhares de pessoas que, apesar da idade, ainda poderiam ser úteis à sociedade, com a sua experiência e sabedoria, todavia, são consideradas uma espécie de excluídos especiais, porque: por um lado, não os deixam trabalhar; mas por outro lado, lhes retiram os rendimentos para os quais labutaram e descontaram décadas.
É tempo de se acabar com o sofrimento e fazer descer da “Cruz” todos os portugueses que nos últimos anos têm sido “crucificados”, injusta, imoral e, quem sabe, ilegalmente; é tempo de se cumprirem promessas feitas em contextos reais e que milhões de portugueses acreditaram e colaboram, para que elas fossem executadas; é tempo de nos ser restituído o respeito, a solidariedade, a dignidade devida a pessoas verdadeiramente humanas.
Este ano, a Páscoa, enquanto acontecimento religioso no mundo católico, decorre a menos de uma semana de outro grande evento nacional que é o vinte e cinco de Abril, data para se comemorar a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Religião e Política não são incompatíveis, pelo contrário, podem articular-se, cooperar e encontrarem as soluções para que em Portugal se viva com perspectivas de um futuro muito melhor, para que a sociedade portuguesa sinta, definitivamente, que os seus deveres são equitativamente exigidos, mas também os seus direitos integralmente respeitados.
Os Portugueses são credores, em todo o mundo, de grande admiração, respeito e estima, porque são cumpridores, honestos, trabalhadores, humildes, educados e criativos. Tais qualidades devem ser reconhecidas ”cá dentro”, entre todos nós, a começar por quem nos administra e em quem milhões de cidadãos acreditaram, independentemente das opções políticas, religiosas e filosóficas de cada um e dos respetivos estatutos sócio-profissionais. É tempo de “Descrucificar” a população; é tempo de a retirar da “Pesada Cruz” a que foi submetida, injustamente.
Nesta Páscoa, que todos desejaríamos vivê-la com alegria e esperança, num futuro muito melhor, queremos, apesar de tudo, continuar a alimentar o “sonho da felicidade” que se pretende realizar através da segurança, da estabilidade no trabalho, na certeza de um fim de vida confortável, sem receios de cortes nas pensões/reformas. Temos direitos adquiridos por contratos firmados, honestamente, com um parceiro que tem o dever de os cumprir e, se possível, melhorar, pelo menos em benefício dos mais carenciados e desprotegidos.
E se é certo que: «A felicidade aumenta com a intervenção social e participação nas organizações beneficientes …» (RICARD, 2005:217), então é necessário que o Estado se preocupe muito mais com a dimensão social que deve ter para com todos os portugueses, porque temos direito de sermos felizes, em várias dimensões: axiológica, trabalho, segurança social, saúde, educação, formação, habitação e lazer, entre outras.
É tempo de se dizer “basta”, de não se crucificar sempre os mesmos. Convoquem-se aqueles que não sendo funcionários públicos, reformados, pensionistas e trabalhadores do setor privado, mas os outros, aqueles que ocupam posições de destaque, bem remuneradas, porque, seguramente, que estes também estarão disponíveis para darem o seu contributo e, desta forma, atenuarem o sacrifício daqueles que nos últimos anos têm vindo a pagar a fatura de uma “despesa” que não fizeram. Corte-se no que é exagerado, nos bens e benefícios supérfluos.
Páscoa de dois mil e catorze, festa da Ressurreição de Cristo Redentor, que deveria ser de restauração de direitos injustamente retirados, do respeito por todos quantos têm contribuído para que este país seja símbolo do cumprimento dos Direitos Humanos, das Normas Constitucionais, enfim, pela exaltação da dignidade da pessoa humana.
Desejamos a todos os portugueses que nunca mais tenham uma Páscoa tão triste devido à situação em que nos encontramos. Queremos para toda a sociedade nacional que se restaurem os direitos para os quais contribuímos generosamente, sempre de boa-fé. Queremos descer da “Cruz Pesada da Austeridade Injusta”. Queremos Solidariedade, Amizade, Lealdade, Igualdade, Fraternidade, Liberdade. Queremos a nossa Dignidade de Pessoas Verdadeiramente Humanas.

Bibliografia

BAKER, Mark W., (2005). Jesus o Maior Psicólogo que já Existiu.Trad. Cláudia Gerpe Duarte. Rio de Janeiro: Sextante.
BRIAN L. Weiss, M.D. (2000). A Divina Sabedoria dos Mestres. Um Guia para a Felicidade, alegria e Paz Interior. Trad. António Reca de Sousa. Cascais: Pergaminho. 

O Presidente da Direção

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

domingo, 6 de abril de 2014

O Poder Religioso


Desde tempos imemoriais que o poder religioso exerce uma profunda influência nas pessoas em geral, e nos crentes em particular e que, atravessando séculos e milénios, chega aos dias de hoje com grande pujança e revelador de progressos significativos, nomeadamente, a sua abertura às questões sociais, eventualmente, sem o dogmatismo tão acentuado, como poderia ter ocorrido um pouco ao longo da Idade Média e, atualmente, em consequência de posições radicais e fundamentalistas por parte de alguns dignitários e de seus seguidores.
A verdade, porém, na maioria das grandes religiões, é que estas desejam aprofundar o diálogo entre elas, justamente para se encontrarem soluções para muitos problemas, especialmente os de natureza social e humanitária, que continuam a atormentar a sociedade humana no seu todo.
Destacar o contributo positivo do poder religioso não significa branquear situações que, no passado medieval, teriam ocorrido e, eventualmente, ainda se verificam, num ou noutro ponto do mundo.
O importante, no atual contexto mundial é recolocar este fenómeno humano no lugar que, por mérito próprio, lhe pertence, isto é, ao nível dos mais altos poderes do Estado, porque se o poder espiritual da Igreja tem servido para mediar conflitos, então, deve-se-lhe reconhecer tal influência e capacidade em tudo o que respeita, por exemplo, ao reconhecimento inequívoco, não envergonhado e o correspondente relevo temporal.
Em todo o cerimonial protocolar do Estado, até porque, segundo o Santo Padre, João XXIII, na Encíclica “Pacem in Terris” 1963: «Entre os direitos do homem, deve incluir-se, também a liberdade de prestar culto a Deus de acordo com os retos ditames da própria consciência, e de professar a religião, privada e publicamente.» (in BIGO & ÁVILA, 1983: 266).
Aceitando-se, num Estado de Direito Democrático, a separação de poderes, desde logo o poder temporal do poder religioso, o Estado e a Igreja, isso não significa que as duas instituições não possam e não devam cooperar nos assuntos que afetam a população civil, esta composta por crentes e não crentes, governados e governantes, bem pelo contrário, haverá matéria, domínios, conhecimentos e experiências em que a Igreja já demonstrou estar muito melhor preparada do que o poder laico.
 É suficiente invocar-se o trabalho desenvolvido em contextos e cenários desfavoráveis às intervenções dos técnicos, onde as instituições religiosas do tipo Missões, Misericórdias, Confrarias, Caritas, etc., têm revelado capacidades, competências e sentimentos que não são muito comuns em algumas instituições governamentais. Os valores religiosos da caridade, da compaixão, da tolerância, da solidariedade, entre outros, têm aqui um sentido profundamente personalista e universalista.
Ignorar a existência desta realidade milenar, para fugir ao reconhecimento da existência, influência e imprescindibilidade da religião, da Igreja e dos seus legítimos e legais dignitários, corresponde a mentalidades e comportamentos que, definitivamente, optam pela via do confronto verbal, físico, bélico, isto é: do poder do mais forte, materialmente auto-considerado.
O mundo civilizado, moderado, tolerante, humanista, personalista e pacífico, deve encaminhar-se para os seus valores tradicionais e milenares, o mais antigo dos quais é, porventura, a Religião, com todos os seus recursos, espirituais e materiais.
Esta é que é a realidade que a humanidade deve entender, considerar e respeitar, porque o homem, além do corpo físico, tem algo de muito mais específico, transcendente e sublime: tem uma alma, um espírito, uma dimensão que é filha da divindade Deus, a Quem deve obediência, respeito, veneração e amor.
O poder religioso, consubstanciado na fé, assume na pessoa humana, a sua maior dimensão, pela qual, quando tudo falha na vida material, o crente consegue ultrapassar e vencer situações que nem a ciência, nem a técnica, nem a fortuna material conseguiram dominar. É este poder de auto-convicção, de auto-estima e de auto-confiança que leva aos maiores sucessos pessoais, independentemente da religião que se professa.
Com este poder é possível manter a dignidade, o respeito e a determinação em prosseguir um caminho que conduz aos mais nobres e sublimes objectivos: amor, felicidade e paz.
O ser humano que alcança estes valores, certamente que fica dotado de um poder que nenhuma outra via lhe proporciona. O poder religioso solidifica, quem o possui, nos sentimentos da confiança e da esperança, sem os quais será difícil evoluir para uma sociedade verdadeiramente humana, fundamentalmente, quando se perde o amor pelo Deus que tudo cria, controla e extingue.
Será pela confiança em si e no seu Deus e pela esperança que Ele incute, através do amor, que o homem alcançará a felicidade e a paz, porque: «O verdadeiro e perfeito amor se mostra nisto: que se tenha grande esperança e confiança em Deus; pois só na confiança se sabe que há um amor verdadeiro e total, pois se alguém ama outrem de todo o coração e com toda a perfeição, surge a confiança; pois tudo quanto se ousa esperar de Deus, nele verdadeiramente se encontra e ainda mil vezes mais.» (ECKHART, 1991: 119)
O poder que resulta da atitude religiosa, suportado na confiança, na esperança e no amor, permite ao indivíduo humano e à sociedade, a partir de uma vida dedicada, também aos valores religiosos, alcançar situações de verdadeira paz, felicidade e realização plena, porque: «A religião está assim implicada no mais íntimo da vida do espírito; mais ainda, é a plenitude da vida da pessoa, colocada como está no termo mesmo de suas dimensões contemplativa e prática – donde elas se conjugarem na atitude de reconhecimento, adoração e submissão à Pessoa Divina, Causa primeira e Fim último do ser da pessoa e de todo o ser criado.» (DERISI, 1977: 53).
 Podem a ciência, a técnica e todo o materialismo humano produzir os mais sofisticados bens: dos supérfluos aos indispensáveis; da ostentação à miséria; do domínio à subjugação, sem que isso signifique a resolução de todos os problemas ou o agravamento dos mesmos, respetivamente.
A pessoa, a família, a sociedade que transportam consigo confiança, esperança e amor, possuem um poder que nenhuma outra arma ou sistema bélico conseguem destruir, porque aqueles sentimentos já são próprios de um ser superiormente dotado, preparado para, mesmo no sofrimento e na derrota materiais da vida físico-social, continuar a lutar pelo objetivo último que se há-de concretizar numa vida espiritual repleta de certezas divinas, da união a Deus, onde todos os sofrimentos, injustiças e humilhações cedem o lugar a uma vida eterna tranquila, justa e digna.
É este poder que alimenta e dá coragem para enfrentar, num mundo materializado, as dificuldades, os obstáculos, os ódios, as vinganças e traições, que uma pequena minoria tenta impor à maioria generosa e de boas pessoas.
 É este poder que resulta de uma confiança sem limites, de uma esperança sempre renovada e de um amor cada vez mais consolidado, que permite que multidões anónimas, periódica e ciclicamente, se dirijam aos lugares sagrados, justamente para agradecer e pedir a Deus a satisfação de necessidades básicas: Graça Divina, saúde, trabalho, amor, paz e felicidade.
Nenhum outro poder entusiasma e mobiliza tantas pessoas como o poder de Deus, configurado na Religião que cada um abraça e comunga, sempre com uma confiança e esperança renovadas, precisamente, no amor ao seu Deus, porque: «A chave da existência humana é o impulso religioso inato que brota da vida essencial universal e a ela aspira retornar. Isso é verdade hoje e o tem sido através da história humana. Os humanóides não se teriam tornado humanos sem a inteligência, mas somente o sentimento religioso poderia tê-los capacitado a desenvolver a inteligência e outras capacidades mentais ou espirituais associadas à nossa espécie.» (IKEDA, 1982: 222).

Bibliografia

BIGO, Pierre, S.J., & ÁVILA, Fernando Bastos, S.J., (1983). Fé Cristã e Compromisso Social; Elementos para uma reflexão sobre a América Latina à luz da Doutrina Social da Igreja, 2. Edição revista e aumentada, São Paulo: Edições Paulinas.
DERISI, Octávio Nicolás, (1977). Valores Básicos para a Construção de uma Sociedade Realmente Humana, Trad. Alfredo Augusto Rabello Leite, São Paulo: Mundo Cultural.
ECKHART, Mestre, (1991). O Livro da Divina Consolação e outros textos seletos, Trad. Raimundo Vier, O.F.M. et al, 2ª Ed. Petrópolis: Vozes.
IKEDA, Daisaku, (1982). Vida: Um Enigma, Uma Jóia Preciosa, Trad. Limeira Tejo Rio de Janeiro: Editora Record.
 
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
(Presidente da Direção da ARPCA)

domingo, 2 de março de 2014

Regresso em Glória


Avançava a luminosidade para Ocidente, e imediatamente atrás o astro-rei fazia a sua aparição, naquela manhã radiosa de Primavera. Ao longe via-se o mar, espraiando-se suavemente na praia dourada, na qual cintilavam gotinhas de orvalho.
Na pequena aldeia a azáfama era já muito grande. Trabalhadores que fazendo-se transportar em bicicletas e motorizadas, deslocavam-se para os seus locais de trabalho, enquanto outros caminhavam a pé pela berma da estrada; lavradores com ferramentas e máquinas, adubos e farnéis, dirigiam-se para os campos onde as lavradas se iniciavam com arados e tratores; para o posto de recolha de leite, seguiam as mulheres com a bilha à cabeça, ou na mão, contendo o precioso líquido, fresco e quente, extraído dos animais que todos os agricultores, de uma maneira geral, criam para apoio à agricultura.
Na praia, indiferente a todo este movimento matinal, uma jovem continuava sentada, parecendo meditar profundamente, percorrendo o horizonte com a vista, como que procurando algo de invisível, no espaço ou no mar. A seu lado tinha um livro aberto e um binóculo.
De quando em vez murmurava algumas palavras, pegava no livro para depois voltar a pousá-lo na areia. O oceano continuava calmo. Pescadores partiam para a faina da pesca em barcos típicos da região: uns, impulsionados a motor; outros, movidos a remos.
Junto ao cais, e um pouco para Sul do local onde a jovem estava, transitavam patrulhas das Autoridades, munidas de autorrádios, perscrutando, também eles, o horizonte. Alguns populares interrogavam-se mimicamente, semblantes inexpressivos, olhos postos na longitude do mar e na imensidão do espaço, afastando-se, depois, para as suas lides, ficando outros no local esperando sem saberem o quê.
A jovem continuava preocupada, embora tranquila. O sol brilhava, agora com maior esplendor, e a temperatura elevava-se gradualmente sem contudo incomodar, até porque uma leve brisa de Noroeste já se fazia sentir. Estava-se na alta Primavera, já quase a entrar no Verão e de facto, aquele mês de Junho decorria, climatericamente, de acordo com a normalidade previsional dos respetivos serviços técnicos de meteorologia.
Pelas nove horas outros populares chegaram ao local, cada um procurando averiguar o que se estaria a passar. Os agentes da autoridade mantinham-se atentos, de vez em quando, estabeleciam comunicações via rádio, provavelmente com outras patrulhas ou com os respetivos superiores.
Decorrido algum tempo, compareceu na praia uma equipa da radiotelevisão, transportando máquinas de filmar, microfones, gravadores e todo um conjunto de equipamentos eletrónicos. Passava já das dez horas quando ao longe, na linha do horizonte, se viu uma mancha branca, ligeiramente acima da água e que se movia no sentido norte-sul, lentamente, mais parecendo um barco à vela em tempo de calmaria. Logo se gerou algum alvoroço.
A jovem levantou-se e, pegando no binóculo, assestou-o naquela direção para, de seguida, dar uma exclamação de desânimo e proferir, quase em surdina: “É uma nuvem”. De facto, a mancha branca elevava-se lentamente da linha de água e deslocava-se no sentido anteriormente referido, norte-sul.
Tudo voltou à expectativa inicial, com a única diferença de que aquela jovem, vestida de negro, cabelo atado e semblante triste, não mais se voltou a sentar na areia seca e brilhante daquela praia minhota, de uma recôndita aldeia portuguesa.
A fase da maré enchente desenvolvia-se regularmente, o vento soprava com um pouco mais de força, o mar, de pequena vaga, estava ligeiramente encrespado. À praia continuavam a chegar mais pessoas e, do cais situado a sul, uma lancha da Marinha zarpou rumo ao Ocidente.
Outras embarcações de pequeno calado seguiram aquela, navegando a motor e mantendo uma distância razoável. No horizonte alguém viu várias silhuetas, movendo-se na água, no sentido de terra. Mais algum tempo e as silhuetas tornaram-se mais nítidas, até se configurarem com a forma de três pequenas embarcações, movidas a remos.
A jovem correu, então, para a beirada da água. As autoridades que patrulhavam a área aproximaram-se também e, simultaneamente, davam, ordens aos populares para deixarem livres alguns espaços que, imediatamente, delimitaram e sinalizaram. Apenas os operadores de televisão foram autorizados a aproximarem-se da água, com os respetivos equipamentos que logo colocaram em pontos estratégicos, provavelmente para melhor captarem as imagens que indubitavelmente lhes interessavam gravar.
Neste preciso momento surgiu na praia, e rapidamente se deslocou para a área reservada e controlada pelas autoridades, uma pessoa, envergando o hábito de padre que se fazia acompanhar por uma outra que transportava uma caldeirinha com água benzida e que dirigindo-se à jovem lhe dedicou palavras de coragem, de conforto e de resignação, pelo que viesse a suceder, porque assim se cumpria a vontade do destino.
Ela olhou-o, longamente, não conseguindo evitar uma lágrima que pela face aveludada lhe rolou, até cair no colo. Nada disse, apenas o seu olhar foi eloquente para não disfarçar um sentimento, apesar de tudo, de esperança.
Passava já das onze horas quando uma outra personagem fez a sua aparição naquele cenário tão lindo e natural: tratava-se de um indivíduo de cerca de quarenta anos, vestindo uma bata branca e transportando, na mão direita, uma pequena caixa, também branca com uma cruz vermelha pintada na tampa.
Seria um médico ou um enfermeiro, mas quem quer que fosse, também para junto da jovem se dirigiu, perguntando-lhe se havia notícias, ao que ela respondeu que o que mais desejava era ter notícias, ainda que não fossem as melhores, pois não podia por muito mais tempo suportar aquele sofrimento.
A movimentação das pessoas, mais ou menos identificadas com determinadas tarefas, não parou de se fazer notar e, decorrido mais algum tempo, após a chegada daqueles que já foram referidos, verificou-se que a cerca de cem metros da praia estacionava uma ambulância dos bombeiros municipais, do interior da qual saíram com alguma rapidez quatro soldados da paz, transportando uma maca e alguns instrumentos de primeiros socorros, dirigindo-se, também, para junto da jovem à qual perguntaram se tinha conhecimento dos últimos acontecimentos.
A donzela olhou os bombeiros com interrogativo gesto de cabeça, dizendo depois, que, tal como eles, apenas julgava saber que o desfecho de tão grande aventura estaria para breve e, apontou para o mar, indicando as três embarcações que, lentamente, se aproximavam da praia e que dentro de alguns minutos tudo ficaria resolvido.
Ainda não era meio-dia e os três barcos a remos, escoltados pela embarcação da Marinha, preparavam-se para abicarem à praia. A jovem vestida de negro, com semblante triste, entra na água, braços levantados, como que num gesto para abraçar alguém.
Neste preciso momento, ouve-se uma voz que dizia: “câmara, ação”. A jovem profere uma frase, bem alto, bem nítida: “Finalmente, chegaste”. Um dos barcos a remos navega, então, com mais velocidade direito à praia. Era tripulado por três homens, vestidos de guerreiros, dois estavam aos remos e o terceiro, levantando-se, exclama: “Para sempre meu amor”.
O tripulante do barco e a jovem envolvem-se, então, num abraço prolongado, intenso, firme e terno. Entretanto, os outros dois barcos abicam, também, na mesma praia. Os seus tripulantes exultam de alegria. As personagens, já caraterizadas, iniciam as suas atividades: o padre rezando uma oração de ação de graças, benzendo as três embarcações; o médico interroga os tripulantes sobre os seus estados de saúde, entrega alguma medicação a um ou outro, dá conselhos e acaba por retirar-se; as autoridades continuam nos seus postos, põem ordem na curiosidade do povo, evitando que este avance para além das linhas definidas previamente para a realização das cenas.
Os restantes intervenientes, enfermeiro e bombeiros, retiram-se, concretizados que foram os seus papéis. Finalmente, a lancha da Marinha, cumprida que foi a missão, encontrando-se todos os tripulantes em terra, navega para o porto local, onde entra sem dificuldade.
Estava consumado mais um capítulo da telenovela: “Regresso em Glória”. As filmagens terminaram naquela aldeia pitoresca do Alto Minho e num dia radioso de Primavera. Outros capítulos se seguiriam, noutras localidades, noutros dias. Os dois jovens enamorados cumpriram, uma vez mais, os papéis que lhes estavam distribuídos.
As cenas dos capítulos seguintes iriam, porém, demonstrar que a vitória e a glória, por vezes, pagam-se muito caro. São as cobiças, as invejas que se instalam no seio dos detratores do sucesso. São as intrigas, os enredos que tecem toda uma teia à volta de um casal que se ama e deseja felicidade. São as lutas que esse mesmo casal terá de enfrentar e vencer para, finalmente, a história acabar como todas as histórias fechadas: “Casaram, tiveram muitos filhos e foram muito felizes

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo 

(Presidente da Direção da ARPCA, em Exercício)